... estava ventando e eu estava cruzando a quinta avenida, quando a minha ficha caiu, não havia um único carro na rua. Parei e fiquei olhando o edifício Empire State, o silêncio jamais visto nesta cidade ecoou na minha cabeça, e essa imagem seria assim pelos próximos meses. Como uma cidade de interior, a cidade se fechou, e nos rostos uma mascara. um olhar triste e pálido... os dias eram ainda mais frios e os olhares se tornariam ainda mais tristes. um caminhão gigante parou e de dentro dele saíram militares devidamente vestidos. Na volta resolvi comprar pão no supermercado mais próximo da minha casa e uma fila saia de dentro do supermercado indicando que quele não era mesmo o melhor momento. Pessoas com carrinhos abarrotados de caixas e sacolas e produtos de limpeza. Comecei a me sentir em estado de alerta, segui para o condomínio onde moro, e o supermercado também estava lotado. Eu não conseguia entender muito bem, porque as pessoas estavam comprando tudo. Tudo de comida e água e remédios... Todas as lojas estavam fechadas, apenas os supermercados, farmácias estavam abertos. as noticias eram alarmantes e os hospitais começavam sua saga de super lotação e gente morrendo nas UTIs. Tudo isso de uma hora para outra. neste dia eu chorei, sentindo o vento frio batendo no meu rosto. eu nunca vou me esquecer de ver a cidade em luto... os noticiários diários davam os números, indicava novas descobertas, mas não dava nenhuma pista para um final seguro... e começou a chuva de fake news e aumentava as multiplicações das mortes. Nova York era o epicentro de uma pandemia, e sem duvidas o vírus andou em cada canto desta cidade. Ao longo de dois dias eu fui percebendo as pessoas desaparecerem, ir ao supermercado era como uma viagem a lua, com luvar, óculos especial e capacete. foi neste processo que entendi sobre liderança, e força motriz para liderar uma cidade cheia de gente, uma ilha super lotada.
Será que estamos doentes, era a pergunta que estávamos nos fazendo todos os dias quando começamos a sentir alguns sintomas. Agora não era mais a rua vazia ou os olhares tristes, era em nós o próprio medo, e a palavra era "adjacentes", como uma casa que tem sua sala principal, quartos, cozinha, banheiro, e as dependências adjacentes. mas a preocupação não era apenas de aumentar o sistema imunológico, havia a mente, é ai o local onde mora uma enorme perigo. o Vírus se estabelece no sistema e propicia altos e baixos, um dia bem o no outro muito mal, percebi minha mente funcionando muito rápido e com muitas imagens do passado. tentar detalhar o que eu senti é muito difícil, mas eu começaria detalhando uma enorme dor nas costas, baço, rins e fígado, cólicas intestinais, dor no peito como ardor, pele seca e escamosa, tremores internos, e tudo isso um dia atrás do outro. e durante quase dois meses. A sensação vital de sobrevivência, de encontrar animo e amor, parece ser um pulso vital para a sobrevivência, quando se é Imuno deprimido. O dia do Jardim foi decisivo. Eu precisava tomar sol, estava me sentindo muito mal e já havia emagrecido e estava muito fraca, triste e quanto mais triste mais eu perdia a vontade de viver. nada estava fazendo sentido e eu precisa de alguma forma escolher de que lado eu gostaria de estar. foi nesta fase que eu suava muito a noite e tinha falta de ar com uma mistura de visões, naquele dia eu me sentia tão mal que parte de mim sentia vontade de ir ao hospital e a outra parte sabia que não haveria espaço, estavam morrendo mais de mil pessoas por dia, não era o melhor a se fazer. eu chorei pensando que a unica coisa que eu queria era estar ali, em casa e jamais em um hospital. Foram dias muito tensos, onde mente e corpo se debatiam entre os dias bons e os dias ruins.















Do amor e do ardor, quando olhamos um ao outro recebendo o gesto que nos provoca prazer e carinho ao mesmo tempo. Nessa troca de olhares e de calores táteis corações e corpos se acendem e se inebriam um com o outro, desvelando o tesouro do afeto e do desejo escondidos pelas situações sociais. Todo esse enleio, esse encantamento íntimo sofre a prova do deslocamento de lugar seja na literatura, no cinema, ou qualquer outra manifestação. Saindo dessas quatro paredes, corre-se o risco de ficar obsceno, palavra que vem da linguagem teatral e indica o que está fora de cena. Nesse momento é posta a prova aquela energia e desejos gerados numa intimidade com a parceira ou parceiro, e nos vemos frente a frente com a publicidade do prazer e da intimidade. Nesse espelho que é a cultura, que são as obras humanas, reaparecem essas cenas protegidas pelo segredo de quatro paredes. E é aí que a nossa sensibilidade e nosso pensamento são postos à prova. Somos desafiados por essas imagens ou palavras, nos excitamos ou nos chocamos, estamos naquela posição da pessoa que está observando, fora da cena, as pessoas e achando ridículas as pessoas que se remexem ao som de uma música, estranhando aquilo que há minutos atrás desfrutávamos alegre e despreocupadamente, ou pelo contrário, ficando com mais vontade de entrar na dança.
Como não quero colocar observações morais o que complicaria a questão, me limito a mostrar o quanto o olhar fora da cena do que é vivenciado, abre o campo para uma outra sensibilidade ou um outro pensamento atuar na recepção, já agora de uma obra, seja literária, refinada estilísticamente, ou visual, atravessadas pelos valores da composição estética, ou de uma atitude reflexiva; Ou trate-se de um produto do entretenimento mais fácilmente digerível e de fruição imediata. Até o meu texto todo cuidadoso, pode provocar algum tipo de arrepio ou de imaginação. De qualquer maneira, sempre se estará, na minha opinião, entrando na tensão do que é vivenciado, do que tem a sua verdade naquele momento, e do que está fora da cena, a mostrar-se como num espelho, nos tirando da postura anestética, e tocando as fibras do nosso segredo afetivo e sensual.