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segunda-feira, 20 de abril de 2020

COVID 19 ...vencendo o medo da morte.

Desafio Covid 19


imagem Gerald Thomas
work in progress



...  estava ventando e eu estava cruzando a quinta avenida, quando a minha ficha caiu, não havia um único carro na rua. Parei e fiquei olhando o edifício Empire State, o silêncio jamais visto nesta cidade ecoou na minha cabeça, e essa imagem seria assim pelos próximos meses. Como uma cidade de interior, a cidade se fechou, e nos rostos uma mascara. um olhar triste e pálido... os dias eram ainda mais frios e os olhares se tornariam ainda  mais tristes. um caminhão gigante parou e de dentro dele saíram militares devidamente vestidos. Na volta resolvi comprar pão no supermercado mais próximo da minha casa e uma fila saia de dentro do supermercado indicando que quele não era mesmo o melhor momento. Pessoas com carrinhos abarrotados de caixas e sacolas e produtos de limpeza. Comecei a me sentir em estado de alerta, segui para o condomínio onde moro, e o supermercado também estava lotado. Eu não conseguia entender muito bem, porque as pessoas estavam comprando tudo. Tudo de comida e água e remédios... Todas as lojas estavam fechadas, apenas os supermercados, farmácias estavam abertos. as noticias eram alarmantes e os hospitais começavam sua saga de super lotação e gente morrendo nas UTIs. Tudo isso de uma hora para outra. neste dia eu chorei, sentindo o vento frio batendo no meu rosto. eu nunca vou me esquecer de ver a cidade em luto... os noticiários diários davam os números, indicava novas descobertas, mas não dava nenhuma pista para um final seguro...  e começou a chuva de fake news e aumentava as multiplicações das mortes. Nova York era o epicentro de uma pandemia, e sem duvidas o vírus andou em cada canto desta cidade. Ao longo de dois dias eu fui percebendo as pessoas desaparecerem,  ir ao supermercado era como uma viagem a lua, com luvar, óculos especial e capacete. foi neste processo que entendi sobre liderança, e força motriz para liderar uma cidade cheia de gente, uma ilha super lotada.
Será que estamos doentes, era a pergunta que estávamos nos fazendo todos os dias quando começamos a sentir alguns sintomas. Agora não era mais a rua vazia ou os olhares tristes, era em nós o próprio medo, e a palavra era "adjacentes", como uma casa que tem sua sala principal, quartos, cozinha, banheiro, e as dependências adjacentes. mas a preocupação não era apenas de aumentar o sistema imunológico, havia a mente, é ai o local onde mora uma enorme perigo. o Vírus se estabelece no sistema e propicia altos e baixos, um dia bem o no outro muito  mal, percebi minha mente funcionando muito rápido e com muitas imagens do passado. tentar detalhar o que eu senti é muito difícil, mas eu começaria detalhando uma enorme dor nas costas, baço, rins e fígado, cólicas intestinais, dor no peito como ardor, pele seca e escamosa, tremores internos, e tudo isso um dia atrás do outro. e durante quase dois meses. A sensação vital de sobrevivência, de encontrar animo e amor, parece ser um pulso vital para a sobrevivência, quando se é Imuno deprimido. O dia do Jardim foi decisivo. Eu precisava tomar sol, estava me sentindo muito mal e já havia emagrecido e estava muito fraca, triste e quanto mais triste mais eu perdia a vontade de viver. nada estava fazendo sentido e eu precisa de alguma forma escolher de que lado eu gostaria de estar. foi nesta fase que eu suava muito a noite e tinha falta de ar com uma mistura de visões, naquele dia eu me sentia tão mal que parte de mim sentia vontade de ir ao hospital e a outra parte sabia que não haveria espaço, estavam morrendo mais de mil pessoas por dia, não era o melhor a se fazer. eu chorei pensando que a unica coisa que eu queria era estar ali, em casa e jamais em um hospital. Foram dias muito tensos, onde mente e corpo se debatiam entre os dias bons e os dias ruins. 
 


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Jogos de Assoprar


Cia da Insônia apresenta: Jogos de Assoprar
O que podemos fazer quando todas as coisas parecem não acontecer conforme esperávamos? E o que esperar quando as coisas todas que podemos fazer parecem não acontecer? Através de uma sucessão de construções imagético-performáticas, Jogos de Assoprar propõe aos nossos sentidos diferentes versões do que seriam o sucesso e o fracasso: Beckett relido (pelas lentes da micropolítica), um desfile de pequenas-grandes tragédias, um final com sabor de delicadeza.

Este trabalho foi fomentado pelo primeiro edital do Fundo Municipal de Cultura de São Carlos.

Quando ? 28 de junho, às 21h

Onde? Teatro do SESI Vila Leopoldina - Rua Carlos Weber, 835 - Vila Leopoldina, São Paulo/SP.

Quanto ? Entrada Gratuita - retirar ingressos a partir das 20hs.

Ficha Técnica:
Direção e dramaturgia: Thaíse Nardim
Elenco: Anna Kuhl, Nádia Stevanato e Guilherme Andere
Assistência de direção: Maurício Zattoni
Produção: Anna Kuhl e Yasmim Bidim
Identidade Visual: Laura Teixeira


A Cia da Insônia é um grupo de teatro formado por artistas de São Carlos que realiza um trabalho dramatúrgico através de colaboração. O primeiro trabalho do grupo surgiu da pesquisa sobre a experiência do dormir, de não dormir, do sonhar e do despertar, que resultou na peça "Sessão Insônia 1 - A Santa", construída por improvisações em torno de uma menina que sonha que é santa e vê sua pureza entrar em conflito com suas características humanas. Em seguida, o grupo construiu uma instalação com performances materializando esta pesquisa na obra "Imaginário da Insônia", contemplada pelo 1° Edital Contato Universitário e apresentada durante o 3° CONTATO Festival Multimídia, em outubro de 2009.

http://ciadainsonia.blogspot.com/
http://twitter.com/ciadainsonia

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Instituto Sérgio Motta - 10 anos

Festival HTTPpix: inscrições até 14 de junho


As inscrições do HTTPpix encerram-se na próxima segunda-feira (14/6). O HTTPpix é um festival de fotografia on-line. Para participar, envie até 6 fotos em que você apareça com as marcas mais presentes no seu cotidiano. O Festival acontece no Flickr e está aberto a participantes de todo o país, sem limite de idade. Três finalistas ganharão prêmios de R$ 1.500,00 cada. O HTTPpix faz parte das ações do Instituto Sergio Motta na Internet, que conta ainda com os Festivais HTTPvideo e HTTPsom. Inscreva-se / Acompanhe o Blog do Festival / Veja as fotos que já estão concorrendo

terça-feira, 8 de junho de 2010

Artistas Contemporâneos e Visionários, uma relação entre as obras de Gerald Thomas e Alex Grey .










Acaso? Destino? Ou alguns artistas são mesmo visionários?

Hoje Gerald Thomas colocou em seu blog o seguinte texto:

"Visionary? Unfortunately. Gulf of Mexico, beyond belief !!!!

I painted those OIL spitting (vomiting) dolphins in London in 2003.

Unfortunately, what we’re witnessing now has gone far beyond that. It’s catastrophic. Catastrophic and beyond proportions. But should we ALWAYS be amazed? Are these (so called) disasters not foreseeable? Really? Will we be taken by surprise when the NYSE and so on crash again? Or a new war begins somewhere? Are we doomed to being stupid?

Time for us to wake up, one day. Some day. Sunday. Sunday might be a good day."

--

Após ler o texto de Geral Thomas fiquei refletindo, pensar no mundo hoje, como os artistas estão vivendo? como suas obras interagem significativamente? então isso me fez pensar, sobre vários artistas inclusive na "Estamira" ela é a alma entre os dois ela é o controle remoto que demonstra o tamanho descaso do homem com o planeta terra, Estamira é a denuncia viva em carne aberta.

Mas pensando nos artistas contemporâneos, eu me lembrei do artista plástico Alex Grey que esteve no Brasil em 2007, Alex Grey é um dos grades anatômistas contemporâneos, que mora em NY e que a algumas décadas havia pintado a as torres gêmeas, prevendo a catástrofe de 2001 em sua pintura.

Apesar de ter citado dois artistas completamente diferentes, estou falando de dois artistas atuais, que estão vivendo e que já viram muitas mudanças acontecerem no mundo já que Alex Grey vive em nova york e Gerald Thomas, transita entre muitos países em que vive.

A capacidade de prever imagens futuras pode estar ligado ao fato de serem pessoas que estão preocupadas com o mundo e como vivemos neste mundo, e o que é importante para todos nós: A vida, a natureza.

Alex Grey pintou a natureza, destruída, e seus dois lados e suas possibilidades. Em sua tela, ele afirma, a visão das torres, com dois aviões apontados para ela, a representação do futuro trágico que veio a acontecer em 2001.
Gerald também pintou a natureza, e colocou a natureza gorfando o petróleo de cima de algo no mar, uma plataforma? (como é o que ele queria dizer quando o fez?) pode parecer estranho, mas para mim, os dois artistas cada um a seu tempo, e agora neste momento, estão tentando nos dizer algo, ao qual está presente, e possívelmente, isso é uma forma de denúncia antecipada da realidade.

O que mais me deixa assustada, é o fato de que ainda não percebemos nada sobre nós mesmos... e sobre o poder de prever aquilo que esta por vir!

sábado, 24 de abril de 2010

O Bixo


Adriane Gomes . Uriel Maniglia . Guilherme Godoy . Cristiano Feitosa . Diego Ávila . Fernanda Echuya
O BIXO – Cristiano Feitosa [08ض08]

O que representa o corpo humano? Que bicho é esse que se movimenta pelo planeta terra? Que ambiente ele produz para vivenciar a sua experiência de vida? São apenas algumas perguntas de tantas outras que suscitaram em minha cabeça o no meu corpo inteiro de me ver envolvido na performance de Adriane Gomes chamada “O Bixo”.
Um corpo ainda envolto por um casulo que se recontorce no chão se rastejando e se guiando aparentemente pelo faro, é acompanhado por um aparato tecnológico: câmera, luz, dois projetores e um retro projetor, que projetam na terra improvisada ou em qualquer espaço do ambiente três imagens diferentes, uma projeção em tempo real da performance, outra já gravada e editada - uma espécie de acumulo de imagens da mesma performance (um rastro de apresentações) - e um retro projetor que lança imagens abstratas sobre o casulo que se movimenta e cobre todo o espaço deixado pelo balé das imagens; Um som orgânico toma conta de todo ar com referências em músicas ritualísticas indígenas.
Quando este corpo envolto por um casulo começa a transparecer e aos poucos vai saindo e se definindo como um corpo de mulher, nos leva a refletir a toda simbologia que está neste ato de transformação. Na natureza o casulo vem como um sacrifício de um bicho que rasteja e que enfrenta essa incubação para se transformar em uma coisa leve como, por exemplo, uma borboleta que depois deste momento de angústia pode voar, simbologia esta que reflete nos nove meses que antecede o nascimento humano e o processo de transformação que passa a mulher no período da gestação.
Portanto quando este corpo de mulher sai nu do casulo, se levanta e passa a andar e respirar com certa força acaba por nos remeter a nós mesmos: o que somos? Em que espécie animal nos transformamos? O que viemos fazer aqui? E todos os movimentos deste corpo que mesmo fora do casulo, ainda suspira algumas contrações, é cercado por todas as imagens projetadas provocando assim extensões de si mesmo, uma metáfora a critica de toda a tecnologia que inciste em nos representar e o mundo que nos cerca a cada instante, criando assim simulações em cima de simulações da referência da experiência única que é a vida, pois toda tecnologia vivenciada é fruto da ciência da tecnologia e razão e “O Bixo” se encontra no âmbito da filosofia da transmutação de valores instinto-emoção.
Quando este “Bixo” que é uma mulher nua
é refletido por todas as imagens saídas das projeções, aos poucos o espectador vai perdendo a referência de um corpo orgânico através de uma confusão de espectros que é produzido pelo mesmo corpo, sintetizado pelas maquinas de produzirem signos imagens, sua imagem filtrada e projetada ao vivo, a sua imagem já gravada em outro tempo espaço, a sua sombra diante da luz do projetor e por aí vai, elevando assim o conceito do “Bixo” até chegarmos ao bicho maior que é o próprio planeta terra, este ser orgânico multifacelado em vida suspenso no ar que vem sendo estrupado, maquinificado e robotizado pelo bicho homem que renega sua natureza criando um outro ambiente, um outro tempo, o tempo das máquinas na qual o corpo humano se vê preso e sujeito a sua lógica de funcionamento de toda esta
engrenagem do um mundo sintético.
O Bixo vem para levantar essa discussão, precisamos sair do casulo, porque agora mais do que nunca se tornou emergencial saber o quanto estas tecnologias estão condicionando as nossas experiências de vida e toda exuberância e eficiência da natureza, respeitando e dando continuidade ao ciclo de todas as formas de vida do Bixo Terra.
E ao final da performance tudo se apaga lentamente e este corpo agora caminha tranqüilo e ás vezes sim e outras não, cita um poema de Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa: “O Guardador de Rebanhos” e sai juntando-se aos demais espectadores e de forma bem sutil. “O Bixo” sai de cena, deixando assim cada um com seus bixos pessoais indefinidos.



Beijos e abraços a Adriane Gomes idealizadora da performance, Fernanda Echuya, Guilherme Godoy e Uriel M.M.


Texto: Cristiano Feitosa
Fotos: Fernanda Echuya

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Projeto Salamandra no Vermont - Itaim

Todas as quartas-feiras do mês de fevereiro aconteceu a festa: "Across The Universe" no Vermont Itaim e o Projeto Salamandra esteve presente ocupando o local com intervenções e ações performáticas.

Fotos:

Créditos fotos: Ana Druzian

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Projeto Salamandra


Pensando o corpo como meio de comunicação, o Projeto Salamandra busca aumentar a capacidade comunicativa, utilizando se de aparatos tecnológicos que amplificam o alcance da mídia primária – o corpo – sendo que este é inegável que está na base de toda a comunicação, sofrendo transformações constantes e carregando consigo uma enorme quantidade de informações, desde a história da vida no universo até resquícios da contemporaneidade.
Utilizando o conceito do corpo como mídia primária e com influências de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Matthey Barney, e de teóricos da comunicação como Vilem Flusser, o grupo de intervenção artística busca corromper o olhar do espectador/atuante, desfazendo repressões - sendo que vivemos numa sociedade tecnocrata repressiva - nesse aspecto as realizações do Projeto Salamandra é de subversão, compondo junto com o público uma cumplicidade na superação do inibido e na busca de novas percepções. As performances não são como espetáculos/encenações para ser apenas apreciada e sim o propósito do grupo é a ação vivenciada e as experiências compartilhadas e as expressões constantemente acumuladas. A superação reside na limitação corporal e técnica, a produção possue caráter intimista, mas que pode ser realizada em diversos ambientes - por exemplo, apresentações em grandes festivais de música eletrônica, a realização de performances em galerias de arte contemporânea e realizações de experiências no meio acadêmico: em sala de aula e teatro – onde a limitação corporal e técnica difundem uma produção experimental com uma densa carga teórica utilizando conceitos técnicos já pré-estabelecidos e criados, sempre com o objetivo da resignificação do corpo, dos diversos suportes e do espaço.

Semana de Artes do Corpo - Trabalho Final Adriane Gomes
A performer utiliza em cada apresentação diversos materiais: tecidos, espelhos, máscaras, fios etc. Visando uma apresentação com caráter orgânico também são utilizados como “carro-chefe” das apresentações frutas e flores (frutas tipicamente brasileiras, girassóis e flores campestres), também é alvo da pesquisa do grupo intervenções utilizando mel, água, urucum e o corpo nu, sempre na busca das questões individuais, que são compartilhadas com o coletivo.
O Projeto conta com a participação de um grupo de estudantes multimidiáticos, onde estes podem explorar ao máximo a capacidade técnica de cada suporte utilizado em cada apresentação. Os suportes utilizados são os mais variados, como projeções em tempo real com efeitos (câmera + projetor), fotografia, retro projetor (transparências), VJ (laptop + projetor), DJ (laptop + caixas acústicas).

Projeção de imagens e o corpo: ritual em sintonia.

A ocupação espacial dos integrantes do coletivo Salamandra sugere uma percepção das questões elaboradas. Cada um com uma linha de pesquisa busca interferir no corpo da performer utilizando a projeção, luz, imagem, formas, sombras, sons; Alterando e evocando uma gestualidade espelho-corporal que provoca um diálogo entre performer e cada participante do grupo, unindo a postura humana no contexto histórico com origens ritualísticas-ancentrais que inspiram as realizações presenciais.
o Bixo
Os temas abordados extrapolam a busca pessoal de cada indivíduo, tratando da urgência, da velocidade (que pode ser lida no momento da performance como anti-velocidade - por sugerir uma zona autônoma temporária), Rituais de Passagem, mergulhando nos conhecimentos das Danças Sagradas, sintonia com os sentidos, transcender: “como a alegria e entusiasmo podem curar o corpo, porque nosso corpo é nossa alma” sugere Adriane, o coletivo busca sempre estar em sintonia com todos os corpos atuantes para um resultado limpo e eficaz.

Processos criativos: o labirinto da improvisação.

“Para toda brincadeira existe uma regra” propõe Adriane, relacionando sua pesquisa-trabalho a uma brincadeira séria. Tudo funciona com a existência de um crivo central de pessoas que observa e organiza toda a produção, mas esse crivo basicamente é uma pequena parte do Projeto.


Texto: Coletivo Salamandra

sábado, 20 de setembro de 2008

Reflexo

Noite de Kino. São Paulo, mais precisamente Cinemateca, 24 de agosto, estávamos prontos pro tema, numa espécie de corrida com a câmera, os atletas deveriam gravar e editar em menos de 48 horas sobre o tema dado: política viva! Política? É tão amplo, tão aberto e perigoso, como dizer de algo que nem eu bem sei se sei. Como falar de uma abstração tão presente, mas às vezes tão invisível? Aceito o desafio, pusemo-nos logo pra pensar, o que queremos fazer? Eu, Yasmin e Camila, mal sabíamos o que nos esperava, o verdadeiro idílio perigoso ao qual nos meteríamos. Ok. O que temos em mãos? Uma São Paulo inteira num domingo, o que era ainda melhor, mais vazia, mas não menos instigante.
Decidimos por visitar lugares históricos e falar sobre o esvaziamento de valores e de história desses lugares, ou melhor, lugares marcados por uma data específica e que contivessem uma carga política extremamente forte, pontos na cidade marcados na História do Brasil, e ali, fazer uma espécie de intervenção, de constatação do que restou, o hoje alienado carregando o fardo do passado histórico. Pensamos no DOPS (órgão de repressão durante a ditadura), na Praça da Sé, palco das Diretas Já, o Teatro Ruth Escobar, o teatro onde os atores de Roda Viva, peça de Chico Buarque, foram espancados na ditadura, Rua Maria Antônia, palco da Batalha da Maria Antônia, um enfrentamento entre estudantes em 1968, o Teatro Oficina, útero de peças emblemáticas para a história cultural do Brasil como O rei da Vela, eram tantos lugares, tão distantes uns dos outros, e nós contávamos com cash mínimo, metrô, e vontade, apenas. Logo de cara uma sorte imensa: uma mulher pediu pra sentar conosco na Cinemateca, não queria sentar sozinha, estava sozinha, e começamos conversar, todos, e descobrimos que era performer, atriz também, Adriane Gomes. É ela, pensamos, e logo aceitou o convite, extremamente atenciosa e disposta a dividir com a gente essa batalha da câmera, do tempo, do tema, da criatividade. Foi-nos referência máxima de sensibilidade e ordenação de nossas idéias, deu-nos suporte artístico e logístico, enfim, uma feliz coincidência.
Sob algumas orientações do Professor Alessandro, decidimos por cercar o tema de forma menos abstrata e mais específica, falaríamos de política no dia-a-dia em lugares com peso histórico, ponto. E a Adriane seria a passante, a transeunte, e por fim, a performer. O trabalho não poderia demorar para se iniciar, e o fizemos tão crentes de que seria um longo dia, mas não sequer imaginávamos o que nos aguardava.
Gravamos algumas cenas na Maria Antônia, rua emblemática onde se encontra as universidades Mackenzie e USP, antigamente escola de Filosofia, hoje, centro de recreação, lá, enfrentaram-se os estudantes, integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) versus os estudantes da Universidade de São Paulo, alinhados mais à esquerda. Pancadaria e morte: a vítima, um estudante secundarista de 20 anos, José Carlos Guimarães. Depois, a Sé, dentre pregações, homens bêbados, turistas, Adriane subiria ao marco zero e pregaria política, muda, já que na edição o som era tão somente o ensurdecedor sino da catedral. Essa cena quase nos resultou em prisão: subir no marco zero é proibido! Obviamente não era uma depredação pública, era uma intervenção pública, e só. O policial que quase nos cantou voz de prisão estava estátua atrás da gente, a vigia e a ordem nos perseguia. Em seguida, o DOPS, uma emoção macabra, as celas expostas com fotos de prisioneiros, pareciam celas medievais, portas grossas, ferros pontiagudos; não foi permitido gravar nada, mas sentir tudo aquilo foi-nos cena forte e sangrenta, uma seqüência de horror, que hoje é mascarada com visitas guiadas e iluminação própria, é o show de horror, o entretenimento da dor.
Nessas andanças pelo centro, vimos de tudo de política viva, ou ausência dela: mendigos, crianças abandonadas, todos esses elementos perturbadores, característicos de uma cidade grande, contraditória e suja. Culminamos na Paulista, o centro financeiro de São Paulo, reduto de todo tipo de gente, todo tipo de política. Lá seria o clímax do vídeo com a performance da Adriane portando um vestido espelhado, com luzes refletindo, em meio a carros e pedestres, seria a redenção. Antes disso, deparamo-nos com Verdi, um senhor culto, um mendigo sóbrio, ácido e pessimista. Praguejava coisas como “tem de jogar uma bomba no congresso nacional”, coisas do tipo, mostrou-nos lúcido e inteligente, extremamente crítico, politizado, uma contradição, a personificação da política viva, errante…um são em pele de louco.
Mais que sair para gravar algo, o importante foi sentir o tema antes de qualquer coisa durante esse processo. Poder com sinceridade discursar visualmente sobre o que é, ou pelo menos o que vimos de política viva, dentre um território tão grande, em cima de uma linha tênue, oscilante, que é política. Confrontarmo-nos após tantas revelações nesse dia, dar atenção àqueles que são invisíveis, ouvir os loucos, não tão loucos assim, sentir o peso da vigia, da ordem e segurança pública, tudo isso mexeu com a gente, nos deixou mais preparados, e emocionados também. Na exibição, o que vimos, foram curtas e curtas, uns subjetivos e alienados, outros engajados inconsistentes, outros alegres, pirotécnicos, fracos, mas uns verdadeiros e emocionantes. O bom foi ver a diversidade de olhar, as multifacetadas formas de se produzir com pouco, criativa e intuitivamente, talvez um reflexo da própria universidade, reduto de ensino e de fraquezas, nós, como estudantes audiovisuais temos grande dilema e desafio: produzir com pouco, criativa e diversamente, apontar nossas câmeras para o que vemos, e refletir, o que somos. A Noite de Kino foi isso.

Matheus Chiaratti é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Erótico e o estético

Um assunto que está me intrigando o pensamento é o erotismo. É um terreno movediço, e por isso mesmo tem que ser trilhado, elaborado pela sensibilidade e pelo pensamento. Creio que podemos pensar no obsceno como o que está fora de cena, de contexto. No limite, o ato sexual mexe com todas as nossas posturas ditas civilizadas, ele é o momento da pulsão e da entrega, do extravasamento.Do amor e do ardor, quando olhamos um ao outro recebendo o gesto que nos provoca prazer e carinho ao mesmo tempo. Nessa troca de olhares e de calores táteis corações e corpos se acendem e se inebriam um com o outro, desvelando o tesouro do afeto e do desejo escondidos pelas situações sociais. Todo esse enleio, esse encantamento íntimo sofre a prova do deslocamento de lugar seja na literatura, no cinema, ou qualquer outra manifestação. Saindo dessas quatro paredes, corre-se o risco de ficar obsceno, palavra que vem da linguagem teatral e indica o que está fora de cena. Nesse momento é posta a prova aquela energia e desejos gerados numa intimidade com a parceira ou parceiro, e nos vemos frente a frente com a publicidade do prazer e da intimidade. Nesse espelho que é a cultura, que são as obras humanas, reaparecem essas cenas protegidas pelo segredo de quatro paredes. E é aí que a nossa sensibilidade e nosso pensamento são postos à prova. Somos desafiados por essas imagens ou palavras, nos excitamos ou nos chocamos, estamos naquela posição da pessoa que está observando, fora da cena, as pessoas e achando ridículas as pessoas que se remexem ao som de uma música, estranhando aquilo que há minutos atrás desfrutávamos alegre e despreocupadamente, ou pelo contrário, ficando com mais vontade de entrar na dança. Como não quero colocar observações morais o que complicaria a questão, me limito a mostrar o quanto o olhar fora da cena do que é vivenciado, abre o campo para uma outra sensibilidade ou um outro pensamento atuar na recepção, já agora de uma obra, seja literária, refinada estilísticamente, ou visual, atravessadas pelos valores da composição estética, ou de uma atitude reflexiva; Ou trate-se de um produto do entretenimento mais fácilmente digerível e de fruição imediata. Até o meu texto todo cuidadoso, pode provocar algum tipo de arrepio ou de imaginação. De qualquer maneira, sempre se estará, na minha opinião, entrando na tensão do que é vivenciado, do que tem a sua verdade naquele momento, e do que está fora da cena, a mostrar-se como num espelho, nos tirando da postura anestética, e tocando as fibras do nosso segredo afetivo e sensual.

Texto: Roberto Cordeiro Sanches
Fotos: Fernanda Echuya