Mostrando postagens com marcador Adriane Gomes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adriane Gomes. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de julho de 2010

GERALD THOMAS - Um período de silêncio para um retorno cheio de inquietações!

Escrevi sobre o Manifesto de Gerald Thomas e lá eu dizia exatamente sobre esta passagem (tempo/espaço) que os artistas necessitam em suas vidas, é uma verdadeira alegria essa notícia, não pelo simples fato de um artista voltar a fazer sua obra, mas por que cada obra tem um valor na vida das pessoas, a arte é agente mutante e transformador, a obra de Gerald faz isso com as pessoas, é notável como o belo e o grotesco em suas obras caminham juntos, e asssim entre platéia e admiradores da sua obra, está sua criação!

Na entrevista ao qual o jornalista afirma a volta dos que não foram, eu fiquei pensando... foi para onde?

Gerald na minha opinião estava engasgado com algo e isso precisava descer e ser digerido. Digerir significa parar de comer e sentir tudo sendo esmagado, triturado e por fim... Merda!!!!


Acompanhar o blog e os textos me fazem conhecer um pouco da produção e dá uma vontade de ver de perto tudo acontecer, mas claro que esse trabalho se vier para o Brasil, o Projeto Salamandra não poderá perder!
breve estréia com tempo marcado!



 
Nove meses depois de anunciar que abandonara o teatro, o diretor recria, em Londres, a sua companhia; 
estréia é em outubro 

Estrevista a Arnaldo Bloch
 
Frames reproduzidos de filmagem em igreja londrina

Parecia coisa de futebol, mas sem direito a despedida em grande arena (apesar de as arenas estarem tanto para as artes cênicas quanto para os esportes): em setembro do ano passado, Gerald Thomas dizia adeus ao teatro numa longa carta em seu blog, com um título igualmente longo (“Manifesto/Minha Independência ou Morte - Tudo a Declarar - It’s a Long Good Bye”).
  Num mundo interconectado onde, a seu ver, a cultura, a História e a arte de transformar que ele conhecera se perdem em frivolidades, Gerald preferia partir para outra a render-se ao iTheatre. Eis que, nove meses depois, como sói entre atletas arrependidos, o diretor volta, na moita, aos palcos, recriando em Londres — território onde pouco trabalhou — sua Dry Opera Company (Companhia da Ópera Seca). Nesta entrevista, direto de Nova York, mais novidades.

O GLOBO: O que o fez mudar de ideia tão rápido?
GERALD: Conversei com amigos, dentre eles Philip Glass, e percebi que mesmo esses momentos de se sentir um zero à esquerda faziam parte do que somos. Mas sair é uma coisa: sai-se por esgotamento, como foi o caso em setembro do ano passado. Olhei para minha vida e meu trabalho, e não Gostei do que vi. Entrar de novo é mais parecido com ter que pedir licença para viver. Comecei a construir o caminho de volta pela Inglaterra da minha adolescência, onde casei as três primeiras vezes e criei um filho, mas que não me conhecia bem e com a qual tenho uma relação de amor e ódio. 

O GLOBO: Da ida à volta, foi exatamente o tempo de um parto. 
GERALD: Um parto de quíntuplos, porque é duro parir uma identidade em vez de uma peça. Você redescobre sua obra inteira e a enxerga como se estivesse vendo algo de um estranho. Não reconhece nada. Olha tudo aquilo justamente como as pessoas que diziam que não entendiam o teatro de Gerald Thomas. Ao renascer, vou me expondo a esse povo todo em Londres sem saber o que está pela frente...

O GLOBO: Como tem sido o processo de seleção e quando pretende estrear? Já existe o embrião de um primeiro texto?
GERALD: Vi perto de 600 atores em uma semana. Aproveitei um monte. Vamos ver quem resiste ao workshop em agosto
para a estreia em outubro. Vou desenvolver textos para pessoas como o Kevin, um extraordinário ator, a Maria de Lima, portuguesa com sotaque londrino, ou Dan, com aquela cara de judeu que deixa claro de onde viemos e que vamos para a lama. Estou brincando com o título Cain Unable: foneticamente soa como Cain and Abel, os dois irmãos bíblicos, mas quer dizer Caim incapacitado. Os atores ingleses têm uma incrível energia. Podem não ter muita cultura, e isso me impressionou: a grande maioria não sabia quem era Samuel Beckett ou Richard Wagner, nem definir homo sapiens. Mas aqui em Nova York a atmosfera do East Village e do teatro de onde venho está cansada. O establishment venceu mesmo! Quase não há resistência... Já no teatro britânico existe uma longa história de agitprop theater, ou seja, o teatro do opositor. 


O GLOBO: Em setembro você dizia não estar pronto para o iTheatre. A nova companhia incluirá o meio digital?
GERALD: Sim. O próprio material dos testes já está disponível em Vimeo (melhor que YouTube porque comporta uma hora ou mais). Mas iTheater se ri a migrar para o território virtual. Isso, não! Porém, ter um departamento de mídias, incluindo a tecnologia G4, sim, com prazer.

O GLOBO: Você vai se transferir de NY para Londres? Está casado? 
GERALD: Desde dezembro passado estou nessa ponte NY-LON: acho que não consigo me desgrudar mais dessas calçadas. Casei de novo, sim, mas não estou a fim de dizer com quem nem dar detalhes.

O GLOBO: Como estão os outros projetos? Cinema e o livro “Suicide note”... 
GERALD: Fiz um ensaio, que está no meu videolog, intitulado “Book”. Não é cinema, não é teatro, mas sim uma narrativa, um fio condutor de imagens e ideias que irão pontuar o filme cujo título será “Copywriter” (ideia de Claudio Martins), já que o original, “Ghost writer”, foi literalmente roubado pelo Polanski. Tem gente captando em vários lugares, inclusive no Brasil. Será uma espécie de thriller, inteiramente em película.

O GLOBO: Um de seus últimos trabalhos no Brasil foi sobre sua mãe, que falecera. Como andam seus diálogos com ela?  
GERALD: Nossa, você instalou microfones aqui em casa? Tenho pensado muito, muito nela. Em como não consegui lidar direito com os últimos anos. E que a coisa teve que se resumir numa peça, através da qual tentei pedir perdão. 

O GLOBO: Pelo quê?
GERALD: Falhei em tudo. Não estive lá quando ela mais precisou de mim. Coloquei-a num asilo e achei que estava o.k. Não, não estava.

O GLOBO: Você assistiu à Copa? 
GERALD: Claro. Fiquei muitíssimo triste com a saída do Brasil. Quase morro.


O GLOBO: E quando você passa por aqui? 
GERALD: Nunca excluo o Brasil. Mas, se eu for esperar um convite, fico sentado e viro estátua de sal.

PS: esta tudo aí!!! Londres amor! Londres!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Festival de Cinema Latino Americano

Ontem (12/07) rolou a Cerimônia de Abertura do 5º Festival de Cinema Latino Americano em São Paulo. Pontualmente 21h a mestre de cerimônias adentrou o suntuoso palco e iniciou os trabalhos de apresentar e agradecer uma infinita lista de diretores, patrocinadores etc. 

 

Após inflamáveis discursos dos organizadores e representantes do governo começou a projeção do filme: "Água Fria do Mar" - de Paz Fábrega -  que como o nome diz jogou realmente "água fria" nos espectadores famintos por uma película digna de uma estréia de festival e que não animou muito os presentes. O filme escolhido para a abertura não atingiu as expectativas.. mas teve muita gente que gostou também!! Lembramos durante a confraternização da abertura do ano passado que foi exibido La Teta Assustada da diretora Claudia Llosa que fez a platéia aplaudir emocionada..


Continuando.. o local escolhido para sediar o festival não poderia ser outro - o Memorial da América Latina - que infelizmente fica esvaziado de ações/ocupação boa parte do ano. Um lugar imenso no meio da cidade de São Paulo que não se desenrola e não propaga, não ocupa-se..



Finalmente chegamos ao grande coquetel que finalizou a noite em grande estilo. Todos os presentes confraternizaram e celebraram mais um Festival de Cinema Latino Americano que já garante espaço na agenda cultural da cidade de São Paulo!

  

Os cinéfilos agradecem!

Fotos: Fernanda Echuya

terça-feira, 15 de junho de 2010

Performático Gerald Thomas.


"A obra escrita, falada e imagética, de Gerald Thomas é uma obra performática e totalmente política."

Tive a oportunidade na vida de estudar com Toshi Tanaka por quatro anos, os mais importantes da minha vida na PUC - SP. Conheci sua família, pude ter contato com suas obras, aprendi com ele que o performer é o seu cotidiano, sua vida, sua vida será sua obra e a partir desta idéia de performatividade eu aponto na obra e vida de Gerald Thomas: um Performer Crítico, Inquieto e Político.

Quando Gerald escreve sobre parar de fazer teatro esta aí, uma obra performática, não sobre "parar" no sentido literal, imagino o "parar" que acontece hoje, salas vazias, o esvaziamento do teatro e das obras, é mais que um parar, está e a denúncia de algo que está por vir, já que a contemporâneidade e a globalização coloca tudo em uma bandeja e serve a aqueles que possuem internet.



Gerald Thomas é um Artista Performático, que reserva em si a vontade da denúncia, e não se deixa levar pelo romantismo e imbecilidade e pela cegueira da atual sociedade em que vivemos. Por isso a cada atitude sua podemos perceber o Performer atuando, (apesar de ele nunca ter dito ou afirmado isso), segundo entedimento desta categoria o que vai definir um performer é sua "ação" e suas "atitudes" no tempo e espaço.


Além de tudo ele está  exatamente "entre" o teatro de criação autoral e as artes plásticas, configurando assim minha certeza de que para ser um performer existe de fato uma "vida e obra que vai definir se este ou aquele artista é performer ou não".
"Não é todo diretor de teatro ou artista plástico que pode ser chamado de performer", é necessário antes de tudo, olhar e perceber na ação, na sua vida, quais características da performance está relacionada.

"A obra, escrita, falada e imagética, de Gerald Thomas é uma obra performática e totalmente política."

Em muitas de suas entrevistas ele demonstra sua opinião e sempre que se encontra com outros performáticos podemos perceber que além de uma atitude política, Gerald se coloca de frente para as questões da humanidade (sempre).

Em um de seus textos que servem de análise para meu trabalho ele critica a possibilidade do ITeatro! o texto em português abaixo é seu "Grito" de aviso (acima link na integra com texto em inglês).

Talvez esse mundo tão solitário, onde a arte está agora, onde o espectador começa a encontrar registros de obras de arte a categorizar essas novas obras digitais, podem levar a morte do teatro? O Brasileiro, gasta anualmente 56 centavos com teatro, dados do IBGE!

Acabo de realizar uma pesquisa que aponta números absurdos, de horas em que estudantes dedicam sua vida na internet. A grande maioria não foi ao teatro nenhuma vez esse ano!

Muitos grupos, performers e diretores de espetáculos de teatro querem transmitir em tempo real imagens para a rede, e cada dia essa ância tecnológica vem aumentando. Será que o mundo digital tecnológico pode mesmo destruir o teatro? Ou aparecerá novas possibilidades de mudanças para tal? ou o que ainda sobra dele?

Provocador, em outra entrevista Gerald Thomas aos 33 anos criticou no Roda Viva o teatro do Brasil, mas ninguém percebeu a possibilidade que tinhamos em mãos para enteder o que um artista autor e criador estava falando, por que o que me pareceu é que ele estava prevendo esta crise ao qual se encontra hoje o teatro não só no Brasil, mas no mundo.

Talvez por isso a performance tem mergulhado e se tornado algo tão espetacular!
O que mais vejo são artistas se denominarem: Atores e Performers, mas poucos de fato o são!

Por que no texto abaixo, um texto de indepêndencia? Tirem suas próprias conclusões, e me digam, o que é o ITeatro? ITeatro seria uma forma de manipulação?

O ITeatro se pareceria ou seria com uma Blog Novela? O que fazer, para que tudo não se transforme em digital, virtual?

Ir ao teatro ou assistir de casa? Delivere?Quais as consequências?

A indepêndencia seria o fato de não ter resposabilidade com essa esquizôfrenia? De não compartilhar esse ideal que vem sendo apontado ao longo da história? e ao mesmo tempo, conhecer, e experimentar tal processo?

Você já assistiu algum espetáculo na net? Então veja aqui!

--

Minha “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” – TUDO A DECLARAR – “It’s a Long Good Bye”

New York – Meus queridos, cheguei num ponto crucial da minha vida. O MAIS crucial até hoje. Um asterisco. Aliás, já estou nele há algum tempo e percebo que não adianta resmungar pra cima e pra baixo. Finalmente tomei uma decisão.

“Transformar o mundo: acordar todos os dias e transformar o mundo”, dizia a voz de Julian Beck (quem eu dirigi e com quem aprendi tanta coisa). Eu tinha uma vaga noção das coisas. Não encontro mais nenhuma. Eu tinha uma fantasia. Não a encontro mais. Só encontro aquele auto-retrato de Rembrandt me olhando, ele aos 55, eu aos 55, um num tempo, o outro no outro, como se um quisesse dizer pro outro: o TEU “renascentismo” acabou: Você morreu. Morri?

I can’t go on. And I won’t go on.

Beckett, que é o meu universo mais próximo, diria “but I’ll go on”. Sim, existia uma necessidade de se continuar. Mas olho em volta e me pergunto: Continuar o quê? Não há muito o que continuar.

Minha vida nos palcos acabou. Acabou porque eu determinei que os tempos de hoje não refletem teatro e vice-versa. Também não estou a fim de criar o iTheatro, assim como o iPhone ou o iPod. A miniatura e o “self satistaction” cabem muito bem na decadência criativa de hoje. Mas, se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor de algo que já teve um gosto bom e novo.

Claro, minha opção dramatúrgica sempre foi escura, sempre foi dark, se assim querem. De Beckett e Kafka aos meus próprios pesadelos, que um crítico do New York Times disse que eu ”usava a platéia como meu terapeuta”. Até que coloquei Freud como sujeito principal da ópera “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Acho que o resultado todo mundo conhece.

É estranho. Até 2003, 2005 talvez, ainda fazia sentido colocar coisas em cena. Sinceramente não sei descrever o que mudou. Mas mudou.

Claro que somos seres políticos. Mas isso não quer dizer que nossa obsessão ou a nossa única atenção tenha que ser A política. Ao contrário. A arte existe, ou existia, justamente para fazer pontes, metáforas, analogias entre a condição e fantasia do ser humano de hoje e de outras eras e horas.

Daniel Barenboim, que nasceu Argentino mas é cidadão do mundo (um dos músicos mais brilhantes do mundo), e cidadão Israelense, achou uma forma de aplicar sua arte na prática. Ele tenta, desde 2004, “provocar”, através da música, a paz entre palestinos e israelenses. Fez um lindíssimo discurso ao receber o prêmio “Wolf” no Knesset Israelense dizendo que sua vida era somente validada pela música que ele conseguia construir com jovens músicos palestinos (presos, confinados – justamente na época em que Israel construía um Muro de separação) e jovens músicos israelenses.

Não sou tão genial quanto Daniel Barenboim e construir uma peça de teatro é muito mais difícil que abrir partituras de um, digamos, Shostakovich ou Tchaicovski, e colocar a orquestra pra tocar.

AMNÉSIA TEMPORÁRIA

Um trecho de uma sinopse, por exemplo, que escrevi quando os tempos ainda se mostravam propícios:

“E em Terra em Trânsito, uma óbvia homenagem a Glauber, uma soprano só consegue se libertar de sua clausura entrando em delírios, conversando com um cisne fálico, judeu anti-sionista, depois de ouvir pelo rádio um discurso do falecido Paulo Francis sobre o que seria a verdadeira forma de “patriotismo”. O cisne (cinismo) sempre a traz de volta a lembranças: “Ah, você me lembra os silêncios nas peças de Harold Pinter! Não são psicológicos. Mas é que o sistema nacional de saúde da Grã-Bretanha está em tal estado de declínio que os médicos estão a receitar qualquer substância, mineral ou não mineral, que as pessoas ficam lá, assim, petrificadas… cheirando umas às outras…”

Essa “petrificação” que a sinopse descreve, acabou me pegando.

“Os dois espetáculos (Terra em Trânsito e Rainha Mentira), são uma homenagem à cultura teatral e operística aos mortos pelos regimes autoritários/ditaduras”.

Serão mesmo? Homenagens? Não, não são. Quando escrevo um espetáculo, escrevo e enceno o que tenho que encenar. Não penso em homenagens.

“Mais do que nunca eu acredito que somente através da arte o ser humano voltará a ter uma consciência do que está fazendo nesse planeta e de seu ínfimo tamanho perante a esse imenso universo: ambas as peças se encontram em “Liebestod”, a última ária de “Tristão e Isolda”, onde o amor somente é possível através da morte e vice-versa. No enterro da minha mãe, ao qual eu não fui (por pura covardia) uma carta foi lida (mas ela é lida na cena final de “Rainha Mentira”), que presta homenagem aos seres desse planeta que foram, de uma forma ou outra, desterrados, desaparecidos, torturados ou são simplesmente o resultado de uma vida torta, psicologicamente torta, desde o início torta e curva, onde nenhuma linha reta foi, de fato, reta, onde as portas somente se fechavam e onde tudo era sempre uma clausura e tudo era sempre proibido e sempre trancado. Então, a tal homenagem se torna real, através da ficção da vida do palco”.

Pulo pra outro trecho, lá no fim do programa.

“Essa xícara esparramada nessa vitrine desse sex shop em Munique era um símbolo que Beckett não ignoraria e não esqueceria jamais. Eu também não. Sejam bem vindos a tudo aquilo que transborda. ”

Por que coloquei esse trecho de programa ai? Não sei dizer.

Liberdade poética pura ou pura liberdade poética. Ou chateação mesmo! Talvez seja um indicador do quanto estou perdido no que QUERO DIZER e ONDE QUERO CHEGAR.

Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou. Talvez nunca venha a descobrir. Posso estar vivendo uma enorme ilusão. Mas não me custa tentar. Virei escravo de um computador e virei escravo de uma agenda política imediata da qual não faço parte. Tenho uma imensa cultura histórica. Imensa. Tão grande que a política de hoje raramente me interessa. Sim, claro, Obama. Mil vezes Obama. Mas Obama afeta o mundo inteiro. Mais eu não quero dizer.

Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou.

(nota rápida: acabo de ver o que resta do The Who, Daltrey e Townsend, no programa do Jools Holland: não tem jeito: nenhuma banda de hoje tem identidade MESMO! A garotada babava! E era pra babar mesmo!)

Sabem? Vale sempre repetir. Fui criado na sombra do holocausto entre os pingos de Pollock e os “ready mades” de Duchamp e os rabiscos do Steinberg. Isso o Ivan Serpa e o Ziraldo me ensinaram muitíssimo cedo na vida.

E… Haroldo de Campos.

Meu Deus! O quanto eu devo a ele! Não somente o fato dele ter sido o curador dos livros que a Editora Perspectiva lançou a meu respeito mas… a convivência! E que convivência! E a amizade. Indescritível como o mundo ficou mais chato e menos redondo no dia em que ele morreu. E ele morreu na estréia do meu “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Haroldo não somente entendia a minha obra, como escrevia sobre ela, traçava paralelos com outros autores e criava, transcriava a partir do meu trabalho. A honra que isso foi não tem paralelos. Por que a honra? Porque Haroldo era meu ídolo desde a minha adolescência. O mero fato de “Eletra ComCreta” se chamar assim, era uma homenagem aos concretistas.

Mas ele só veio aparecer na minha vida na “Trilogia Kafka”, em 1987. Eu simplesmente não acreditei quando ele entrou naquele subterrâneo do Teatro Ruth Escobar.

Nem mesmo a convivência com Helio Oiticica foi uma coisa tão forte e duradoura.

Não posso e não vou nomear todas as grandes influências da minha vida. Daria mais que um catálogo telefônico. Já bato nessa tecla faz um tempo.

Philip Glass dá uma graciosa e hilária entrevista a meu respeito (http://www.vimeo.com/2988089). Dura uns 20 minutos. Nela, ele sintetiza, como se num improviso, tudo aquilo que os scholars e os críticos não conseguem dizer ou tentam dizer com oito mil palavras por parágrafo! Essa entrevista também está no www.geraldthomas.com ou aqui em vídeos, no blog.

Meu pai me fazia ouvir Beethoven numa RCA Victor enorme que tínhamos. E eu, aos prantos, com a Pastoral (a sexta sinfonia) desenhava, desenhava essas coisas que, décadas mais tarde (na biblioteca do Museu Britânico) iam virando projetos de teatro. Hoje, com mais de 80 “coisas” montadas nos palcos do mundo, olho pra trás e o que vejo?

Vejo pouco. Vejo um mundo nivelado por uma culturazinha de merda, por twitters que nada dizem. Vejo pessoas sem a MENOR noção do que já houve e que se empolgam por besteiras. Nem bandas ou grupos de músicas inovadoras existem: vivemos num looping dentro da cabeça de alguém. Talvez dentro de John Malcovich. E, ao contrário de Prospero, ele não nos liberta para o novo, mas nos condena pro velho e o gasto! Até a China tem a cara do Ocidente. Ou então nos antecipamos e nós é que temos a cara da China, já que tudo aqui é “made in China”.

Sim, encontrei Samuel Beckett, montei seus textos, encontrei um monte de gente que, quem ainda não viu, não sabe ou não leu – vá no www.geraldthomas.com e se depare com o meu universo.

E gostaria muitíssimo que vocês entendessem o seguinte: quando comecei minha carreira teatral, a vida, a cena aqui no East Village era “efervescente”. Tínhamos o Village Voice e o SoHo News pra nos apoiar intelectualmente. A “cena” daqui era multifacetada. Eram dezenas de companhias, desde aquelas sediadas no La MaMa, ou no PS122, ou em porões, ou em Lofts ou em garagens, ou aquelas que o BAM importava, mas era tudo uma NOVA criação. Era o exercício do experimentalismo. Do risco. E os críticos, assim como os ensaístas, nos davam páginas de apoio.

Além do mais, a minha geração não INVENTOU nada. Somente levou aquilo que (frutos de Artaud, Julian e Grotowski), como Bob Wilson, Pina Bausch, Victor Garcia, Peter Brook, Peter Stein e Richard Foreman e Ellen Stewart, etc., haviam colocado em cena. Faço parte de uma geração de “colagistas” (se é que essa palavra existe). Simplesmente “levamos pra frente, com alguns toques pessoais” o que a geração anterior nos tinha dado na bandeja. Mas quem sofreu foram eles. Digo, a revolução foi de Artaud e não da minha geração..

Portanto, minha geração não fará parte da HISTÓRIA. Óbvio que digo isso com enorme tristeza. Nada fizemos, além de tocarmos o barco e ornamentarmos ele.

Ah, hoje o Village Voice está reduzido a um jornal de sex ads. Sobre os teatros eu prefiro não falar. Quanto aos grupos, 99 por cento deles, não existem mais e nem foram trocados por outros. Só se vê pastiche. É o mesmo que no mundo da música: é o mesmo bate-estaca em tudo que é lugar.

Esse universo está menor que aquele que Kepler ou Copernico ou Galileu descobriram. O Wooster Group aqui fechou suas portas. Muitas companhias de teatro daqui e da Europa fecharam suas portas. E poucos jovens sabem quem é Peter Brook. Esse ano perdemos Pina Bausch e Merce Cunningham e Bob Wilson, o Último Guerreiro de pé, inexplicavelmente, viaja com uma peça medíocre: “Quartett” de Heiner Mueller, que eu mesmo tive o desprazer de estrear aqui nos Estados Unidos (com George Bartenieff e Crystal Field) e no Brasil com Tonia Carreiro e Sergio Britto nos anos 80. Heiner Mueller é perda de tempo.

E Wilson está tendo enormes dificuldades em manter seu complexo experimental em Watermill, Long Island, aqui perto, que habilitava jovens do mundo a virem montar mini espetáculos e conviver e trocar idéias com seus pares de outros países.

Sim, o tempo semi-acabou.

Mas somente parte desse tempo acabou. E o problema é meu. Como disse antes: vou tentar sair por aí pra redescobrir quem eu sou.

Mas vai ser difícil. Sou daqueles que viu a Tower Records abir a loja aqui na Broadway com Rua 4. Hoje a Tower se foi e até a Virgin, que destruiu a Tower, também se foi e está com tapumes cobrindo-a lá em Union Square. Parece analogia pra um 11 de Setembro? Não, não é. Falo somente de mega lojas de Cds.

Tive a sorte de seguir as carreiras de pessoas brilhantes, ver Hendrix de perto, ou Led Zeppelin, ou dirigir Richard Wagner, e estar na linha de cuspe de Michael Jackson e de assistir ao vivo o nascimento da televisão a cabo, da CNN, da internet, dos emails pra lá e pra cá. Deram-me presentes lindos como grande parte das óperas que dirigi nos melhores palcos das casas de Ópera da Europa.

São muitas fantasias que a depressão não deixa mais transparecer. E o que é a arte sem a fantasia, sem o artifício? É o mesmo que o samba sem o surdo e a cuíca! Fica algo torto ou levemente aleijado.

Não, não estou indo embora. Anatole Rosenfeld escreveu:

“O teatro é mais antigo que a literatura e não depende dela. Há teatros que não se baseiam em textos literários. Segundo etnólogos, os pigmeus possuem um teatro extraordinário, que não tem texto. Representam a agonia de um elefante com uma imitação perfeita, com verdadeira arte no desempenho. Usam algumas palavras, obedecendo à tradição oral, mas não há texto ou literatura.

No improviso também há tradição.”

Perdi meu improviso. Sim, perdi a vontade de improvisar.

Vou fazer um enorme esforço em me ver de volta, seja via aqueles olhos de Rembrandt ou uma fatia do Tubarão de Damien Hirst.

Óbvio que – na eventual possibilidade de um acontecimento real – eu reapareço por aqui com textos, imagens, etc. Também sem acontecimentos. Pode ser que eu me encontre no meio da Tunísia, numa tenda de renda, e resolva, a la Paul Bowles escrever algo: surgirá aqui também. Então, o blog permanecerá aberto, se o IG assim o permitir.

Sei que estou no início de uma longa, quase impossível e solitária jornada.

I’ve had the best theater and opera stages of the world, in more than 15 countries given to me. Yes, I was given the gift of the Gods. No complaints, whatsoever. It has been a wonderful ride. Really has. Thank you all so very much. Thank you all so very very much.

Um breve adeus para vocês!

LOVE

Gerald Thomas, 7 September 2009

terça-feira, 8 de junho de 2010

Artistas Contemporâneos e Visionários, uma relação entre as obras de Gerald Thomas e Alex Grey .










Acaso? Destino? Ou alguns artistas são mesmo visionários?

Hoje Gerald Thomas colocou em seu blog o seguinte texto:

"Visionary? Unfortunately. Gulf of Mexico, beyond belief !!!!

I painted those OIL spitting (vomiting) dolphins in London in 2003.

Unfortunately, what we’re witnessing now has gone far beyond that. It’s catastrophic. Catastrophic and beyond proportions. But should we ALWAYS be amazed? Are these (so called) disasters not foreseeable? Really? Will we be taken by surprise when the NYSE and so on crash again? Or a new war begins somewhere? Are we doomed to being stupid?

Time for us to wake up, one day. Some day. Sunday. Sunday might be a good day."

--

Após ler o texto de Geral Thomas fiquei refletindo, pensar no mundo hoje, como os artistas estão vivendo? como suas obras interagem significativamente? então isso me fez pensar, sobre vários artistas inclusive na "Estamira" ela é a alma entre os dois ela é o controle remoto que demonstra o tamanho descaso do homem com o planeta terra, Estamira é a denuncia viva em carne aberta.

Mas pensando nos artistas contemporâneos, eu me lembrei do artista plástico Alex Grey que esteve no Brasil em 2007, Alex Grey é um dos grades anatômistas contemporâneos, que mora em NY e que a algumas décadas havia pintado a as torres gêmeas, prevendo a catástrofe de 2001 em sua pintura.

Apesar de ter citado dois artistas completamente diferentes, estou falando de dois artistas atuais, que estão vivendo e que já viram muitas mudanças acontecerem no mundo já que Alex Grey vive em nova york e Gerald Thomas, transita entre muitos países em que vive.

A capacidade de prever imagens futuras pode estar ligado ao fato de serem pessoas que estão preocupadas com o mundo e como vivemos neste mundo, e o que é importante para todos nós: A vida, a natureza.

Alex Grey pintou a natureza, destruída, e seus dois lados e suas possibilidades. Em sua tela, ele afirma, a visão das torres, com dois aviões apontados para ela, a representação do futuro trágico que veio a acontecer em 2001.
Gerald também pintou a natureza, e colocou a natureza gorfando o petróleo de cima de algo no mar, uma plataforma? (como é o que ele queria dizer quando o fez?) pode parecer estranho, mas para mim, os dois artistas cada um a seu tempo, e agora neste momento, estão tentando nos dizer algo, ao qual está presente, e possívelmente, isso é uma forma de denúncia antecipada da realidade.

O que mais me deixa assustada, é o fato de que ainda não percebemos nada sobre nós mesmos... e sobre o poder de prever aquilo que esta por vir!

sábado, 24 de abril de 2010

O Bixo


Adriane Gomes . Uriel Maniglia . Guilherme Godoy . Cristiano Feitosa . Diego Ávila . Fernanda Echuya
O BIXO – Cristiano Feitosa [08ض08]

O que representa o corpo humano? Que bicho é esse que se movimenta pelo planeta terra? Que ambiente ele produz para vivenciar a sua experiência de vida? São apenas algumas perguntas de tantas outras que suscitaram em minha cabeça o no meu corpo inteiro de me ver envolvido na performance de Adriane Gomes chamada “O Bixo”.
Um corpo ainda envolto por um casulo que se recontorce no chão se rastejando e se guiando aparentemente pelo faro, é acompanhado por um aparato tecnológico: câmera, luz, dois projetores e um retro projetor, que projetam na terra improvisada ou em qualquer espaço do ambiente três imagens diferentes, uma projeção em tempo real da performance, outra já gravada e editada - uma espécie de acumulo de imagens da mesma performance (um rastro de apresentações) - e um retro projetor que lança imagens abstratas sobre o casulo que se movimenta e cobre todo o espaço deixado pelo balé das imagens; Um som orgânico toma conta de todo ar com referências em músicas ritualísticas indígenas.
Quando este corpo envolto por um casulo começa a transparecer e aos poucos vai saindo e se definindo como um corpo de mulher, nos leva a refletir a toda simbologia que está neste ato de transformação. Na natureza o casulo vem como um sacrifício de um bicho que rasteja e que enfrenta essa incubação para se transformar em uma coisa leve como, por exemplo, uma borboleta que depois deste momento de angústia pode voar, simbologia esta que reflete nos nove meses que antecede o nascimento humano e o processo de transformação que passa a mulher no período da gestação.
Portanto quando este corpo de mulher sai nu do casulo, se levanta e passa a andar e respirar com certa força acaba por nos remeter a nós mesmos: o que somos? Em que espécie animal nos transformamos? O que viemos fazer aqui? E todos os movimentos deste corpo que mesmo fora do casulo, ainda suspira algumas contrações, é cercado por todas as imagens projetadas provocando assim extensões de si mesmo, uma metáfora a critica de toda a tecnologia que inciste em nos representar e o mundo que nos cerca a cada instante, criando assim simulações em cima de simulações da referência da experiência única que é a vida, pois toda tecnologia vivenciada é fruto da ciência da tecnologia e razão e “O Bixo” se encontra no âmbito da filosofia da transmutação de valores instinto-emoção.
Quando este “Bixo” que é uma mulher nua
é refletido por todas as imagens saídas das projeções, aos poucos o espectador vai perdendo a referência de um corpo orgânico através de uma confusão de espectros que é produzido pelo mesmo corpo, sintetizado pelas maquinas de produzirem signos imagens, sua imagem filtrada e projetada ao vivo, a sua imagem já gravada em outro tempo espaço, a sua sombra diante da luz do projetor e por aí vai, elevando assim o conceito do “Bixo” até chegarmos ao bicho maior que é o próprio planeta terra, este ser orgânico multifacelado em vida suspenso no ar que vem sendo estrupado, maquinificado e robotizado pelo bicho homem que renega sua natureza criando um outro ambiente, um outro tempo, o tempo das máquinas na qual o corpo humano se vê preso e sujeito a sua lógica de funcionamento de toda esta
engrenagem do um mundo sintético.
O Bixo vem para levantar essa discussão, precisamos sair do casulo, porque agora mais do que nunca se tornou emergencial saber o quanto estas tecnologias estão condicionando as nossas experiências de vida e toda exuberância e eficiência da natureza, respeitando e dando continuidade ao ciclo de todas as formas de vida do Bixo Terra.
E ao final da performance tudo se apaga lentamente e este corpo agora caminha tranqüilo e ás vezes sim e outras não, cita um poema de Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa: “O Guardador de Rebanhos” e sai juntando-se aos demais espectadores e de forma bem sutil. “O Bixo” sai de cena, deixando assim cada um com seus bixos pessoais indefinidos.



Beijos e abraços a Adriane Gomes idealizadora da performance, Fernanda Echuya, Guilherme Godoy e Uriel M.M.


Texto: Cristiano Feitosa
Fotos: Fernanda Echuya

domingo, 4 de outubro de 2009

Aconteceu: VI Festival de Apartamento

O Projeto Salamandra abriu as portas do seu espaço de criação via webcam.
Desenvolvendo ações para o festival, o grupo abordou o conceito das videoconferências a partir da luz, da direção de fotografia e da manipulação da realidade.
De São Paulo, a apresentação foi transmitida para o festival via webcam.




Performance: Na casa da Salamandra
Adriane Gomes, Diego Avila, Cristiano Feitosa e Guilherme Godoy

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Festival Eletrocidade!!

Festival Eletrocidade agita o Dia Municipal da Música Eletrônica

Música eletrônica de qualidade, intervenções artísticas e culturais, feira de produtos artesanais e muito mais fazem parte da programação do primeiro festival Eletrocidade!!

Venha conferir!!

clique na imagem para ampliar

sexta-feira, 15 de maio de 2009

V Festival de Apartamento - Performance - Projeto Salamandra

Performance: "Limpando a casa, fazendo a massa, utilizando a cozinha, e conversando com a mulher de Branco".

Adriane Gomes: Performer
Guilherme Godoy: Câmera tempo real e edição
Diego Avila: Live Image
André Nankran: Captação de imagens
Carol Susmeian: Assistente




Limpando a casa, fazendo a massa, utilizando a cozinha e conversando com a mulher de Branco

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Projeto Salamandra no Vermont - Itaim

Todas as quartas-feiras do mês de fevereiro aconteceu a festa: "Across The Universe" no Vermont Itaim e o Projeto Salamandra esteve presente ocupando o local com intervenções e ações performáticas.

Fotos:

Créditos fotos: Ana Druzian

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Projeto Salamandra


Pensando o corpo como meio de comunicação, o Projeto Salamandra busca aumentar a capacidade comunicativa, utilizando se de aparatos tecnológicos que amplificam o alcance da mídia primária – o corpo – sendo que este é inegável que está na base de toda a comunicação, sofrendo transformações constantes e carregando consigo uma enorme quantidade de informações, desde a história da vida no universo até resquícios da contemporaneidade.
Utilizando o conceito do corpo como mídia primária e com influências de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Matthey Barney, e de teóricos da comunicação como Vilem Flusser, o grupo de intervenção artística busca corromper o olhar do espectador/atuante, desfazendo repressões - sendo que vivemos numa sociedade tecnocrata repressiva - nesse aspecto as realizações do Projeto Salamandra é de subversão, compondo junto com o público uma cumplicidade na superação do inibido e na busca de novas percepções. As performances não são como espetáculos/encenações para ser apenas apreciada e sim o propósito do grupo é a ação vivenciada e as experiências compartilhadas e as expressões constantemente acumuladas. A superação reside na limitação corporal e técnica, a produção possue caráter intimista, mas que pode ser realizada em diversos ambientes - por exemplo, apresentações em grandes festivais de música eletrônica, a realização de performances em galerias de arte contemporânea e realizações de experiências no meio acadêmico: em sala de aula e teatro – onde a limitação corporal e técnica difundem uma produção experimental com uma densa carga teórica utilizando conceitos técnicos já pré-estabelecidos e criados, sempre com o objetivo da resignificação do corpo, dos diversos suportes e do espaço.

Semana de Artes do Corpo - Trabalho Final Adriane Gomes
A performer utiliza em cada apresentação diversos materiais: tecidos, espelhos, máscaras, fios etc. Visando uma apresentação com caráter orgânico também são utilizados como “carro-chefe” das apresentações frutas e flores (frutas tipicamente brasileiras, girassóis e flores campestres), também é alvo da pesquisa do grupo intervenções utilizando mel, água, urucum e o corpo nu, sempre na busca das questões individuais, que são compartilhadas com o coletivo.
O Projeto conta com a participação de um grupo de estudantes multimidiáticos, onde estes podem explorar ao máximo a capacidade técnica de cada suporte utilizado em cada apresentação. Os suportes utilizados são os mais variados, como projeções em tempo real com efeitos (câmera + projetor), fotografia, retro projetor (transparências), VJ (laptop + projetor), DJ (laptop + caixas acústicas).

Projeção de imagens e o corpo: ritual em sintonia.

A ocupação espacial dos integrantes do coletivo Salamandra sugere uma percepção das questões elaboradas. Cada um com uma linha de pesquisa busca interferir no corpo da performer utilizando a projeção, luz, imagem, formas, sombras, sons; Alterando e evocando uma gestualidade espelho-corporal que provoca um diálogo entre performer e cada participante do grupo, unindo a postura humana no contexto histórico com origens ritualísticas-ancentrais que inspiram as realizações presenciais.
o Bixo
Os temas abordados extrapolam a busca pessoal de cada indivíduo, tratando da urgência, da velocidade (que pode ser lida no momento da performance como anti-velocidade - por sugerir uma zona autônoma temporária), Rituais de Passagem, mergulhando nos conhecimentos das Danças Sagradas, sintonia com os sentidos, transcender: “como a alegria e entusiasmo podem curar o corpo, porque nosso corpo é nossa alma” sugere Adriane, o coletivo busca sempre estar em sintonia com todos os corpos atuantes para um resultado limpo e eficaz.

Processos criativos: o labirinto da improvisação.

“Para toda brincadeira existe uma regra” propõe Adriane, relacionando sua pesquisa-trabalho a uma brincadeira séria. Tudo funciona com a existência de um crivo central de pessoas que observa e organiza toda a produção, mas esse crivo basicamente é uma pequena parte do Projeto.


Texto: Coletivo Salamandra

sábado, 18 de outubro de 2008

O BIXO

Foto: Fernanda Echuya - Respect - 2008

A maior parte de análise sobre uma possível evolução humana e sua capacidade de codificar as leis da natureza a fim de constituir uma cultura própria se deu através da sofisticação, do desenvolvimento e do avanço das habilidades de suas ferramentas. Ferramentas essas que passou a registrar todo o seu processo histórico e modificando também o espaço e tempo de seu habitar, na qual o homem se via cada vez mais condicionado ao seu uso, não podendo mais assim conceber o mundo sem o uso dessas suas extensões artificiais.

Os cincos sentidos humano de percepção passaram, portanto a interpretar e a imitar através de suas ferramentas as leis da natureza, interagindo cada vez mais no ambiente do planeta à medida que suas extensões ferramentais iam alcançando mais fundo na natureza, ia sendo filtrando assim a sua experiência de vida e o desenvolvimento de seu pensamento em função da razão e da sua lógica artificial do uso dessas ferramentas.

Assim cada época passou a desenvolver uma tecnologia específica, devido ao círculo vicioso de condicionamento que homem enfrentava para manter a sobrevivência de sua cultura e dar continuidade ao processo histórico de sua experiência de vida. Se analisarmos partindo desse ponto de vista, veremos que a tecnologia não sofre uma evolução de projeção linear de desenvolvimento e sim de uma adaptação para codificar os fenonêmo no caso aqui tanto naturais como humanos, criando assim um terreno fértil para dar continuidade ao condicionamento de aperfeiçoamento de sua engrenagem e por tabela manter sua força motora e criadora que nesse caso passa a ser o homem em seu perfeito domínio.

Então cabe aqui falar que quem evolui não é o homem e sim a sua tecnologia, suas extensões artificiais é quem abre campo de pesquisa e sensações do mundo que o cerca dirigindo os seus sentidos a explorar a vida através de artifícios e deduções racionais, é através da experiência tecnológica que o homem pauta a sua vida.

Esta inversão de valores já foi analisada por diversos teóricos no decorrer da história depois da revolução industrial na quais as ferramentas que o homem cercava passaram à cerca o homem e se transformaram em máquinas, constituindo assim um ambiente frio e insólito nas quais as teorias de Karl Max foram se desenvolvendo até sugerir várias reflexões sobre o processo de alienação que enfrentava o homem devido ao direcionamento e uso das ferramentas que depois do processo industrial se transformaria no processo chave da produção em larga escala e acúmulo de capital condenando a maior parte da humanidade a ter uma vida e trabalho subumano a ritmos mecânicos na qual se concentrou toda crítica ideológica do início do século XX.

Como toda experiência da vida humana passa a ser vivida, filtrada e produzida pelas máquinas, passa a ser alterado de vez o sentido da cultura e da comunicação e das ideologias humana, os detectores desde maquinário irão degustar de um poder incomparável a outras épocas, de difícil julgamento, já que eles servem também ao sistema de programação autônomo do desenvolvimento tecnológico que aponta sempre como solução entusiasta a resolver os problemas da humanidade.

Com a invenção da fotografia, cinema, rádio, televisão, vídeo imagens e computadores todo ambiente cultural humano passa a ser programado, calculado e abstraído pela força produtora industrial e econômica, Vilém Flusser e Mc Luhan em suas teorias já alertavam para as mutações sensoriais e a tendência da transfiguração do ambiente industrial pelo ambiente sintético total, a Era Digital.

O Homem aos poucos vai parando de criar através mundo com as matérias primas e secundárias que são transformadas pelas máquinas e passa a criar agora direto da esfera digital ligados a plugs e aparelhos que cada vez mais se aproxima de seu corpo na tendência de conectar de vez seu corpo orgânico a suas extensões sintéticas, todos os seus sentidos, seu mundo e dados culturais passam a ser abstraídos, calculados e recriados pelo computador.

Aparelhos como celulares (minicomputadores), que já na própria antologia do nome já demonstra a pretensão de ser mais um órgão humano, se assemelha muito mais as antigas ferramentas por ser de uso manual e de fácil deslocação, se pressupõe que cada vez mais tanto o habitar como também o corpo humano estará sobreposto junto ao tempo e espaço nulo da esfera digital.

A abstração do mundo concreto a suas simulações imateriais encontrou no computador o seu suporte ideal, todas as manifestações imateriais desenvolvidas pelo pensamento humano se encontra agora presente através da grande rede "a internet", o corpo humano passa a ficar cada vez mais obsoleto se não manter uma performance virtual condizente a nova esfera que se configura, a consciência humana e as dimensões e sensações da percepção de seu corpo e do planeta passa a ser alterada de forma radical neste novo ambiente que se denomina como cultural digital.

A presença e ausência, o corpo e a tecnologia, a crítica à evolução linear e a transfiguração da natureza em ambientes sintéticos computacionais e cidades poluídas, e entendendo o planeta como um grande organismo vivo, a performance "O BIXO" vem através desses meios tecnológicos artificiais voltados neste caso à percepção artística e a presencia corporal, funcionar como um índice dos desafios e sensações que enfrenta o homem contemporâneo, na tentativa de dar continuidade a sua experiência de vida em meia a tantos ambientes e pensamentos sintéticos a respeito de si, levantando assim uma reflexão de forma simbólica espelhada na relação atemporal da pessoa humana e sua tecnologia.


Texto: Cristiano Feitosa do Vale - Coletivo Salamandra

sábado, 20 de setembro de 2008

Reflexo

Noite de Kino. São Paulo, mais precisamente Cinemateca, 24 de agosto, estávamos prontos pro tema, numa espécie de corrida com a câmera, os atletas deveriam gravar e editar em menos de 48 horas sobre o tema dado: política viva! Política? É tão amplo, tão aberto e perigoso, como dizer de algo que nem eu bem sei se sei. Como falar de uma abstração tão presente, mas às vezes tão invisível? Aceito o desafio, pusemo-nos logo pra pensar, o que queremos fazer? Eu, Yasmin e Camila, mal sabíamos o que nos esperava, o verdadeiro idílio perigoso ao qual nos meteríamos. Ok. O que temos em mãos? Uma São Paulo inteira num domingo, o que era ainda melhor, mais vazia, mas não menos instigante.
Decidimos por visitar lugares históricos e falar sobre o esvaziamento de valores e de história desses lugares, ou melhor, lugares marcados por uma data específica e que contivessem uma carga política extremamente forte, pontos na cidade marcados na História do Brasil, e ali, fazer uma espécie de intervenção, de constatação do que restou, o hoje alienado carregando o fardo do passado histórico. Pensamos no DOPS (órgão de repressão durante a ditadura), na Praça da Sé, palco das Diretas Já, o Teatro Ruth Escobar, o teatro onde os atores de Roda Viva, peça de Chico Buarque, foram espancados na ditadura, Rua Maria Antônia, palco da Batalha da Maria Antônia, um enfrentamento entre estudantes em 1968, o Teatro Oficina, útero de peças emblemáticas para a história cultural do Brasil como O rei da Vela, eram tantos lugares, tão distantes uns dos outros, e nós contávamos com cash mínimo, metrô, e vontade, apenas. Logo de cara uma sorte imensa: uma mulher pediu pra sentar conosco na Cinemateca, não queria sentar sozinha, estava sozinha, e começamos conversar, todos, e descobrimos que era performer, atriz também, Adriane Gomes. É ela, pensamos, e logo aceitou o convite, extremamente atenciosa e disposta a dividir com a gente essa batalha da câmera, do tempo, do tema, da criatividade. Foi-nos referência máxima de sensibilidade e ordenação de nossas idéias, deu-nos suporte artístico e logístico, enfim, uma feliz coincidência.
Sob algumas orientações do Professor Alessandro, decidimos por cercar o tema de forma menos abstrata e mais específica, falaríamos de política no dia-a-dia em lugares com peso histórico, ponto. E a Adriane seria a passante, a transeunte, e por fim, a performer. O trabalho não poderia demorar para se iniciar, e o fizemos tão crentes de que seria um longo dia, mas não sequer imaginávamos o que nos aguardava.
Gravamos algumas cenas na Maria Antônia, rua emblemática onde se encontra as universidades Mackenzie e USP, antigamente escola de Filosofia, hoje, centro de recreação, lá, enfrentaram-se os estudantes, integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) versus os estudantes da Universidade de São Paulo, alinhados mais à esquerda. Pancadaria e morte: a vítima, um estudante secundarista de 20 anos, José Carlos Guimarães. Depois, a Sé, dentre pregações, homens bêbados, turistas, Adriane subiria ao marco zero e pregaria política, muda, já que na edição o som era tão somente o ensurdecedor sino da catedral. Essa cena quase nos resultou em prisão: subir no marco zero é proibido! Obviamente não era uma depredação pública, era uma intervenção pública, e só. O policial que quase nos cantou voz de prisão estava estátua atrás da gente, a vigia e a ordem nos perseguia. Em seguida, o DOPS, uma emoção macabra, as celas expostas com fotos de prisioneiros, pareciam celas medievais, portas grossas, ferros pontiagudos; não foi permitido gravar nada, mas sentir tudo aquilo foi-nos cena forte e sangrenta, uma seqüência de horror, que hoje é mascarada com visitas guiadas e iluminação própria, é o show de horror, o entretenimento da dor.
Nessas andanças pelo centro, vimos de tudo de política viva, ou ausência dela: mendigos, crianças abandonadas, todos esses elementos perturbadores, característicos de uma cidade grande, contraditória e suja. Culminamos na Paulista, o centro financeiro de São Paulo, reduto de todo tipo de gente, todo tipo de política. Lá seria o clímax do vídeo com a performance da Adriane portando um vestido espelhado, com luzes refletindo, em meio a carros e pedestres, seria a redenção. Antes disso, deparamo-nos com Verdi, um senhor culto, um mendigo sóbrio, ácido e pessimista. Praguejava coisas como “tem de jogar uma bomba no congresso nacional”, coisas do tipo, mostrou-nos lúcido e inteligente, extremamente crítico, politizado, uma contradição, a personificação da política viva, errante…um são em pele de louco.
Mais que sair para gravar algo, o importante foi sentir o tema antes de qualquer coisa durante esse processo. Poder com sinceridade discursar visualmente sobre o que é, ou pelo menos o que vimos de política viva, dentre um território tão grande, em cima de uma linha tênue, oscilante, que é política. Confrontarmo-nos após tantas revelações nesse dia, dar atenção àqueles que são invisíveis, ouvir os loucos, não tão loucos assim, sentir o peso da vigia, da ordem e segurança pública, tudo isso mexeu com a gente, nos deixou mais preparados, e emocionados também. Na exibição, o que vimos, foram curtas e curtas, uns subjetivos e alienados, outros engajados inconsistentes, outros alegres, pirotécnicos, fracos, mas uns verdadeiros e emocionantes. O bom foi ver a diversidade de olhar, as multifacetadas formas de se produzir com pouco, criativa e intuitivamente, talvez um reflexo da própria universidade, reduto de ensino e de fraquezas, nós, como estudantes audiovisuais temos grande dilema e desafio: produzir com pouco, criativa e diversamente, apontar nossas câmeras para o que vemos, e refletir, o que somos. A Noite de Kino foi isso.

Matheus Chiaratti é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)