quarta-feira, 24 de novembro de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
Romance Andante
Imagens do Projeto Salamandra em ações performáticas, realizadas no centro da cidade de São Paulo (Vale do Anhangabaú, Teatro Municipal e Viaduto do Chá) e no evento de música eletrônica Respect Arte e Cultura no ano de 2008.
O tempo e a movimentação se orientalizando em meio ao caos ocidental.
O Ver Vermelho Vertéria da Flor Adriane Gomes
Performer: Adriane Gomes
Fotografia: Fernanda Echuya
Edição: Cristiano Feitosa
terça-feira, 15 de junho de 2010
Performático Gerald Thomas.
"A obra escrita, falada e imagética, de Gerald Thomas é uma obra performática e totalmente política."
Tive a oportunidade na vida de estudar com Toshi Tanaka por quatro anos, os mais importantes da minha vida na PUC - SP. Conheci sua família, pude ter contato com suas obras, aprendi com ele que o performer é o seu cotidiano, sua vida, sua vida será sua obra e a partir desta idéia de performatividade eu aponto na obra e vida de Gerald Thomas: um Performer Crítico, Inquieto e Político.
Quando Gerald escreve sobre parar de fazer teatro esta aí, uma obra performática, não sobre "parar" no sentido literal, imagino o "parar" que acontece hoje, salas vazias, o esvaziamento do teatro e das obras, é mais que um parar, está e a denúncia de algo que está por vir, já que a contemporâneidade e a globalização coloca tudo em uma bandeja e serve a aqueles que possuem internet.
Gerald Thomas é um Artista Performático, que reserva em si a vontade da denúncia, e não se deixa levar pelo romantismo e imbecilidade e pela cegueira da atual sociedade em que vivemos. Por isso a cada atitude sua podemos perceber o Performer atuando, (apesar de ele nunca ter dito ou afirmado isso), segundo entedimento desta categoria o que vai definir um performer é sua "ação" e suas "atitudes" no tempo e espaço.
Além de tudo ele está exatamente "entre" o teatro de criação autoral e as artes plásticas, configurando assim minha certeza de que para ser um performer existe de fato uma "vida e obra que vai definir se este ou aquele artista é performer ou não".
"Não é todo diretor de teatro ou artista plástico que pode ser chamado de performer", é necessário antes de tudo, olhar e perceber na ação, na sua vida, quais características da performance está relacionada.
"A obra, escrita, falada e imagética, de Gerald Thomas é uma obra performática e totalmente política."
Em muitas de suas entrevistas ele demonstra sua opinião e sempre que se encontra com outros performáticos podemos perceber que além de uma atitude política, Gerald se coloca de frente para as questões da humanidade (sempre).
Em um de seus textos que servem de análise para meu trabalho ele critica a possibilidade do ITeatro! o texto em português abaixo é seu "Grito" de aviso (acima link na integra com texto em inglês).
Talvez esse mundo tão solitário, onde a arte está agora, onde o espectador começa a encontrar registros de obras de arte a categorizar essas novas obras digitais, podem levar a morte do teatro? O Brasileiro, gasta anualmente 56 centavos com teatro, dados do IBGE!
Acabo de realizar uma pesquisa que aponta números absurdos, de horas em que estudantes dedicam sua vida na internet. A grande maioria não foi ao teatro nenhuma vez esse ano!
Muitos grupos, performers e diretores de espetáculos de teatro querem transmitir em tempo real imagens para a rede, e cada dia essa ância tecnológica vem aumentando. Será que o mundo digital tecnológico pode mesmo destruir o teatro? Ou aparecerá novas possibilidades de mudanças para tal? ou o que ainda sobra dele?
Provocador, em outra entrevista Gerald Thomas aos 33 anos criticou no Roda Viva o teatro do Brasil, mas ninguém percebeu a possibilidade que tinhamos em mãos para enteder o que um artista autor e criador estava falando, por que o que me pareceu é que ele estava prevendo esta crise ao qual se encontra hoje o teatro não só no Brasil, mas no mundo.
Talvez por isso a performance tem mergulhado e se tornado algo tão espetacular!
O que mais vejo são artistas se denominarem: Atores e Performers, mas poucos de fato o são!
Por que no texto abaixo, um texto de indepêndencia? Tirem suas próprias conclusões, e me digam, o que é o ITeatro? ITeatro seria uma forma de manipulação?
O ITeatro se pareceria ou seria com uma Blog Novela? O que fazer, para que tudo não se transforme em digital, virtual?
Ir ao teatro ou assistir de casa? Delivere?Quais as consequências?
A indepêndencia seria o fato de não ter resposabilidade com essa esquizôfrenia? De não compartilhar esse ideal que vem sendo apontado ao longo da história? e ao mesmo tempo, conhecer, e experimentar tal processo?
Você já assistiu algum espetáculo na net? Então veja aqui!
Minha “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” – TUDO A DECLARAR – “It’s a Long Good Bye”
New York – Meus queridos, cheguei num ponto crucial da minha vida. O MAIS crucial até hoje. Um asterisco. Aliás, já estou nele há algum tempo e percebo que não adianta resmungar pra cima e pra baixo. Finalmente tomei uma decisão.
“Transformar o mundo: acordar todos os dias e transformar o mundo”, dizia a voz de Julian Beck (quem eu dirigi e com quem aprendi tanta coisa). Eu tinha uma vaga noção das coisas. Não encontro mais nenhuma. Eu tinha uma fantasia. Não a encontro mais. Só encontro aquele auto-retrato de Rembrandt me olhando, ele aos 55, eu aos 55, um num tempo, o outro no outro, como se um quisesse dizer pro outro: o TEU “renascentismo” acabou: Você morreu. Morri?
I can’t go on. And I won’t go on.
Beckett, que é o meu universo mais próximo, diria “but I’ll go on”. Sim, existia uma necessidade de se continuar. Mas olho em volta e me pergunto: Continuar o quê? Não há muito o que continuar.
Minha vida nos palcos acabou. Acabou porque eu determinei que os tempos de hoje não refletem teatro e vice-versa. Também não estou a fim de criar o iTheatro, assim como o iPhone ou o iPod. A miniatura e o “self satistaction” cabem muito bem na decadência criativa de hoje. Mas, se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor de algo que já teve um gosto bom e novo.
Claro, minha opção dramatúrgica sempre foi escura, sempre foi dark, se assim querem. De Beckett e Kafka aos meus próprios pesadelos, que um crítico do New York Times disse que eu ”usava a platéia como meu terapeuta”. Até que coloquei Freud como sujeito principal da ópera “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Acho que o resultado todo mundo conhece.
É estranho. Até 2003, 2005 talvez, ainda fazia sentido colocar coisas em cena. Sinceramente não sei descrever o que mudou. Mas mudou.
Claro que somos seres políticos. Mas isso não quer dizer que nossa obsessão ou a nossa única atenção tenha que ser A política. Ao contrário. A arte existe, ou existia, justamente para fazer pontes, metáforas, analogias entre a condição e fantasia do ser humano de hoje e de outras eras e horas.
Daniel Barenboim, que nasceu Argentino mas é cidadão do mundo (um dos músicos mais brilhantes do mundo), e cidadão Israelense, achou uma forma de aplicar sua arte na prática. Ele tenta, desde 2004, “provocar”, através da música, a paz entre palestinos e israelenses. Fez um lindíssimo discurso ao receber o prêmio “Wolf” no Knesset Israelense dizendo que sua vida era somente validada pela música que ele conseguia construir com jovens músicos palestinos (presos, confinados – justamente na época em que Israel construía um Muro de separação) e jovens músicos israelenses.
Não sou tão genial quanto Daniel Barenboim e construir uma peça de teatro é muito mais difícil que abrir partituras de um, digamos, Shostakovich ou Tchaicovski, e colocar a orquestra pra tocar.
AMNÉSIA TEMPORÁRIA
Um trecho de uma sinopse, por exemplo, que escrevi quando os tempos ainda se mostravam propícios:
“E em Terra em Trânsito, uma óbvia homenagem a Glauber, uma soprano só consegue se libertar de sua clausura entrando em delírios, conversando com um cisne fálico, judeu anti-sionista, depois de ouvir pelo rádio um discurso do falecido Paulo Francis sobre o que seria a verdadeira forma de “patriotismo”. O cisne (cinismo) sempre a traz de volta a lembranças: “Ah, você me lembra os silêncios nas peças de Harold Pinter! Não são psicológicos. Mas é que o sistema nacional de saúde da Grã-Bretanha está em tal estado de declínio que os médicos estão a receitar qualquer substância, mineral ou não mineral, que as pessoas ficam lá, assim, petrificadas… cheirando umas às outras…”
Essa “petrificação” que a sinopse descreve, acabou me pegando.
“Os dois espetáculos (Terra em Trânsito e Rainha Mentira), são uma homenagem à cultura teatral e operística aos mortos pelos regimes autoritários/ditaduras”.
Serão mesmo? Homenagens? Não, não são. Quando escrevo um espetáculo, escrevo e enceno o que tenho que encenar. Não penso em homenagens.
“Mais do que nunca eu acredito que somente através da arte o ser humano voltará a ter uma consciência do que está fazendo nesse planeta e de seu ínfimo tamanho perante a esse imenso universo: ambas as peças se encontram em “Liebestod”, a última ária de “Tristão e Isolda”, onde o amor somente é possível através da morte e vice-versa. No enterro da minha mãe, ao qual eu não fui (por pura covardia) uma carta foi lida (mas ela é lida na cena final de “Rainha Mentira”), que presta homenagem aos seres desse planeta que foram, de uma forma ou outra, desterrados, desaparecidos, torturados ou são simplesmente o resultado de uma vida torta, psicologicamente torta, desde o início torta e curva, onde nenhuma linha reta foi, de fato, reta, onde as portas somente se fechavam e onde tudo era sempre uma clausura e tudo era sempre proibido e sempre trancado. Então, a tal homenagem se torna real, através da ficção da vida do palco”.
Pulo pra outro trecho, lá no fim do programa.
“Essa xícara esparramada nessa vitrine desse sex shop em Munique era um símbolo que Beckett não ignoraria e não esqueceria jamais. Eu também não. Sejam bem vindos a tudo aquilo que transborda. ”
Por que coloquei esse trecho de programa ai? Não sei dizer.
Liberdade poética pura ou pura liberdade poética. Ou chateação mesmo! Talvez seja um indicador do quanto estou perdido no que QUERO DIZER e ONDE QUERO CHEGAR.
Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou. Talvez nunca venha a descobrir. Posso estar vivendo uma enorme ilusão. Mas não me custa tentar. Virei escravo de um computador e virei escravo de uma agenda política imediata da qual não faço parte. Tenho uma imensa cultura histórica. Imensa. Tão grande que a política de hoje raramente me interessa. Sim, claro, Obama. Mil vezes Obama. Mas Obama afeta o mundo inteiro. Mais eu não quero dizer.
Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou.
(nota rápida: acabo de ver o que resta do The Who, Daltrey e Townsend, no programa do Jools Holland: não tem jeito: nenhuma banda de hoje tem identidade MESMO! A garotada babava! E era pra babar mesmo!)
Sabem? Vale sempre repetir. Fui criado na sombra do holocausto entre os pingos de Pollock e os “ready mades” de Duchamp e os rabiscos do Steinberg. Isso o Ivan Serpa e o Ziraldo me ensinaram muitíssimo cedo na vida.
E… Haroldo de Campos.
Meu Deus! O quanto eu devo a ele! Não somente o fato dele ter sido o curador dos livros que a Editora Perspectiva lançou a meu respeito mas… a convivência! E que convivência! E a amizade. Indescritível como o mundo ficou mais chato e menos redondo no dia em que ele morreu. E ele morreu na estréia do meu “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Haroldo não somente entendia a minha obra, como escrevia sobre ela, traçava paralelos com outros autores e criava, transcriava a partir do meu trabalho. A honra que isso foi não tem paralelos. Por que a honra? Porque Haroldo era meu ídolo desde a minha adolescência. O mero fato de “Eletra ComCreta” se chamar assim, era uma homenagem aos concretistas.
Mas ele só veio aparecer na minha vida na “Trilogia Kafka”, em 1987. Eu simplesmente não acreditei quando ele entrou naquele subterrâneo do Teatro Ruth Escobar.
Nem mesmo a convivência com Helio Oiticica foi uma coisa tão forte e duradoura.
Não posso e não vou nomear todas as grandes influências da minha vida. Daria mais que um catálogo telefônico. Já bato nessa tecla faz um tempo.
Philip Glass dá uma graciosa e hilária entrevista a meu respeito (http://www.vimeo.com/2988089). Dura uns 20 minutos. Nela, ele sintetiza, como se num improviso, tudo aquilo que os scholars e os críticos não conseguem dizer ou tentam dizer com oito mil palavras por parágrafo! Essa entrevista também está no www.geraldthomas.com ou aqui em vídeos, no blog.
Meu pai me fazia ouvir Beethoven numa RCA Victor enorme que tínhamos. E eu, aos prantos, com a Pastoral (a sexta sinfonia) desenhava, desenhava essas coisas que, décadas mais tarde (na biblioteca do Museu Britânico) iam virando projetos de teatro. Hoje, com mais de 80 “coisas” montadas nos palcos do mundo, olho pra trás e o que vejo?
Vejo pouco. Vejo um mundo nivelado por uma culturazinha de merda, por twitters que nada dizem. Vejo pessoas sem a MENOR noção do que já houve e que se empolgam por besteiras. Nem bandas ou grupos de músicas inovadoras existem: vivemos num looping dentro da cabeça de alguém. Talvez dentro de John Malcovich. E, ao contrário de Prospero, ele não nos liberta para o novo, mas nos condena pro velho e o gasto! Até a China tem a cara do Ocidente. Ou então nos antecipamos e nós é que temos a cara da China, já que tudo aqui é “made in China”.
Sim, encontrei Samuel Beckett, montei seus textos, encontrei um monte de gente que, quem ainda não viu, não sabe ou não leu – vá no www.geraldthomas.com e se depare com o meu universo.
E gostaria muitíssimo que vocês entendessem o seguinte: quando comecei minha carreira teatral, a vida, a cena aqui no East Village era “efervescente”. Tínhamos o Village Voice e o SoHo News pra nos apoiar intelectualmente. A “cena” daqui era multifacetada. Eram dezenas de companhias, desde aquelas sediadas no La MaMa, ou no PS122, ou em porões, ou em Lofts ou em garagens, ou aquelas que o BAM importava, mas era tudo uma NOVA criação. Era o exercício do experimentalismo. Do risco. E os críticos, assim como os ensaístas, nos davam páginas de apoio.
Além do mais, a minha geração não INVENTOU nada. Somente levou aquilo que (frutos de Artaud, Julian e Grotowski), como Bob Wilson, Pina Bausch, Victor Garcia, Peter Brook, Peter Stein e Richard Foreman e Ellen Stewart, etc., haviam colocado em cena. Faço parte de uma geração de “colagistas” (se é que essa palavra existe). Simplesmente “levamos pra frente, com alguns toques pessoais” o que a geração anterior nos tinha dado na bandeja. Mas quem sofreu foram eles. Digo, a revolução foi de Artaud e não da minha geração..
Portanto, minha geração não fará parte da HISTÓRIA. Óbvio que digo isso com enorme tristeza. Nada fizemos, além de tocarmos o barco e ornamentarmos ele.
Ah, hoje o Village Voice está reduzido a um jornal de sex ads. Sobre os teatros eu prefiro não falar. Quanto aos grupos, 99 por cento deles, não existem mais e nem foram trocados por outros. Só se vê pastiche. É o mesmo que no mundo da música: é o mesmo bate-estaca em tudo que é lugar.
Esse universo está menor que aquele que Kepler ou Copernico ou Galileu descobriram. O Wooster Group aqui fechou suas portas. Muitas companhias de teatro daqui e da Europa fecharam suas portas. E poucos jovens sabem quem é Peter Brook. Esse ano perdemos Pina Bausch e Merce Cunningham e Bob Wilson, o Último Guerreiro de pé, inexplicavelmente, viaja com uma peça medíocre: “Quartett” de Heiner Mueller, que eu mesmo tive o desprazer de estrear aqui nos Estados Unidos (com George Bartenieff e Crystal Field) e no Brasil com Tonia Carreiro e Sergio Britto nos anos 80. Heiner Mueller é perda de tempo.
E Wilson está tendo enormes dificuldades em manter seu complexo experimental em Watermill, Long Island, aqui perto, que habilitava jovens do mundo a virem montar mini espetáculos e conviver e trocar idéias com seus pares de outros países.
Sim, o tempo semi-acabou.
Mas somente parte desse tempo acabou. E o problema é meu. Como disse antes: vou tentar sair por aí pra redescobrir quem eu sou.
Mas vai ser difícil. Sou daqueles que viu a Tower Records abir a loja aqui na Broadway com Rua 4. Hoje a Tower se foi e até a Virgin, que destruiu a Tower, também se foi e está com tapumes cobrindo-a lá em Union Square. Parece analogia pra um 11 de Setembro? Não, não é. Falo somente de mega lojas de Cds.
Tive a sorte de seguir as carreiras de pessoas brilhantes, ver Hendrix de perto, ou Led Zeppelin, ou dirigir Richard Wagner, e estar na linha de cuspe de Michael Jackson e de assistir ao vivo o nascimento da televisão a cabo, da CNN, da internet, dos emails pra lá e pra cá. Deram-me presentes lindos como grande parte das óperas que dirigi nos melhores palcos das casas de Ópera da Europa.
São muitas fantasias que a depressão não deixa mais transparecer. E o que é a arte sem a fantasia, sem o artifício? É o mesmo que o samba sem o surdo e a cuíca! Fica algo torto ou levemente aleijado.
Não, não estou indo embora. Anatole Rosenfeld escreveu:
“O teatro é mais antigo que a literatura e não depende dela. Há teatros que não se baseiam em textos literários. Segundo etnólogos, os pigmeus possuem um teatro extraordinário, que não tem texto. Representam a agonia de um elefante com uma imitação perfeita, com verdadeira arte no desempenho. Usam algumas palavras, obedecendo à tradição oral, mas não há texto ou literatura.
No improviso também há tradição.”
Perdi meu improviso. Sim, perdi a vontade de improvisar.
Vou fazer um enorme esforço em me ver de volta, seja via aqueles olhos de Rembrandt ou uma fatia do Tubarão de Damien Hirst.
Óbvio que – na eventual possibilidade de um acontecimento real – eu reapareço por aqui com textos, imagens, etc. Também sem acontecimentos. Pode ser que eu me encontre no meio da Tunísia, numa tenda de renda, e resolva, a la Paul Bowles escrever algo: surgirá aqui também. Então, o blog permanecerá aberto, se o IG assim o permitir.
Sei que estou no início de uma longa, quase impossível e solitária jornada.
I’ve had the best theater and opera stages of the world, in more than 15 countries given to me. Yes, I was given the gift of the Gods. No complaints, whatsoever. It has been a wonderful ride. Really has. Thank you all so very much. Thank you all so very very much.
Um breve adeus para vocês!
LOVE
Gerald Thomas, 7 September 2009
sábado, 1 de maio de 2010
sábado, 24 de abril de 2010
O Bixo
Adriane Gomes . Uriel Maniglia . Guilherme Godoy . Cristiano Feitosa . Diego Ávila . Fernanda Echuya
O que representa o corpo humano? Que bicho é esse que se movimenta pelo planeta terra? Que ambiente ele produz para vivenciar a sua experiência de vida? São apenas algumas perguntas de tantas outras que suscitaram em minha cabeça o no meu corpo inteiro de me ver envolvido na performance de Adriane Gomes chamada “O Bixo”.
Um corpo ainda envolto por um casulo que se recontorce no chão se rastejando e se guiando aparentemente pelo faro, é acompanhado por um aparato tecnológico: câmera, luz, dois projetores e um retro projetor, que projetam na terra improvisada ou em qualquer espaço do ambiente três imagens diferentes, uma projeção em tempo real da performance, outra já gravada e editada - uma espécie de acumulo de imagens da mesma performance (um rastro de apresentações) - e um retro projetor que lança imagens abstratas sobre o casulo que se movimenta e cobre todo o espaço deixado pelo balé das imagens; Um som orgânico toma conta de todo ar com referências em músicas ritualísticas indígenas.
Quando este corpo envolto por um casulo começa a transparecer e aos poucos vai saindo e se definindo como um corpo de mulher, nos leva a refletir a toda simbologia que está neste ato de transformação. Na natureza o casulo vem como um sacrifício de um bicho que rasteja e que enfrenta essa incubação para se transformar em uma coisa leve como, por exemplo, uma borboleta que depois deste momento de angústia pode voar, simbologia esta que reflete nos nove meses que antecede o nascimento humano e o processo de transformação que passa a mulher no período da gestação.

Portanto quando este corpo de mulher sai nu do casulo, se levanta e passa a andar e respirar com certa força acaba por nos remeter a nós mesmos: o que somos? Em que espécie animal nos transformamos? O que viemos fazer aqui? E todos os movimentos deste corpo que mesmo fora do casulo, ainda suspira algumas contrações, é cercado por todas as imagens projetadas provocando assim extensões de si mesmo, uma metáfora a critica de toda a tecnologia que inciste em nos representar e o mundo que nos cerca a cada instante, criando assim simulações em cima de simulações da referência da experiência única que é a vida, pois toda tecnologia vivenciada é fruto da ciência da tecnologia e razão e “O Bixo” se encontra no âmbito da filosofia da transmutação de valores instinto-emoção.
Quando este “Bixo” que é uma mulher nua

sábado, 10 de abril de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
domingo, 20 de dezembro de 2009
PUC.SP - Meninas João - Performance
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Aconteceu: Babylon - 5 anos!
domingo, 4 de outubro de 2009
Aconteceu: VI Festival de Apartamento
De São Paulo, a apresentação foi transmitida para o festival via webcam.
Adriane Gomes, Diego Avila, Cristiano Feitosa e Guilherme Godoy
terça-feira, 22 de setembro de 2009
VI Festival de Apartamento
http://festivaldeapartamento.blogspot.com/
Organização:
Thaíse Nardim
Ludmila Castanheira
Rodrigo Emanoel Fernandes
Programação das Performances Confirmadas:
Montagem
Ludmila Castanheira
Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga
(Gabriel García Marquez).
mel-o-drama II
Thaíse Nardim
FelicidadeagoraVocêmedeixouefoiemboraFelicidadeeunãosei DevocênemdemimDeixeiquevocêsefosseagorasofroSemvocêaqui FelicidadeescutaEvêsemeentendeemedesculpa Felicidadeeunãosei DevocênemdemimDeixeiquevocêsefosseagorasofroSemvocêaqui ÉbempossívelquevocêseesqueçaDetudoquehouveentrenós MasaconteçaoqueacontecerEstareidoseuladoPorqueteamojánão seidenósdoisDeixeiquevocêsefosseagorasofroSemvocêaqui
(o retorno da incrível máquina de clichês românticos)
aconteça-me
Rodrigo Emanoel Fernandes
... não há destino, mas tampouco há livre-arbítrio... o que me toca, o que me acontece, vem até mim através de outros, equipados com aquilo que eu mesmo (in)conscientemente liberei no mundo, embora incapaz de saber quando e de que forma o retorno se daria... me submeto, num exercício de arrogante humildade, não sem receio, mas ansioso e até mesmo com certa esperança de que parte da fome que resiste a ser traduzida obtenha uma ligeira satisfação...
sem título (2009)
Tiago de Mello
Ora, uma coisa é evidente: o Cosmo é um organismo vivo que se renova periodicamente. O mistério da inesgotável aparição da Vida é solidária à renovação rítmica do Cosmo. Por essa razão, o Cosmo é imaginado pela forma de uma árvore: o modo de ser do Cosmo e, em primeiro lugar, sua capacidade de regenerar-se infinitamente, é expresso simbolicamente pela vida da árvore. (Mircea Eliade)
Sem Título
Henrique Iwao
Objetos - pentes, tampinhas de garrafa, canivete, alicates, cola quente, serrinha, sugador de solda, utensílios domésticos - são amplificados por microfones de contato e combinados com eletrônicos analógicos, bonecas e brinquedos modificados. São manipulados de modo que a ação seja: i. voluntária e eficaz; ii. involuntária e eficaz; iii. voluntária e ineficaz; iv. Descuidada. O resultado é um solo de música, provavelmente.
EU PAGO
Paula Barros
Trabalho desenvolvido durante o curso de graduação em performance, pela PUC-SP, onde a atriz e performer Paula Barros, externa o desespero do ato de "pagar". Pagar contas, pagar para comer, para dormir, para vestir, para divertir, para ter um corpo saudável, para morar... enfim, chamar a atenção ao ato corriqueiro do pagamento. Utilizando o corpo explicitamente como única mídia de comunicação, ao som do hino nacional brasileiro, a ação busca exprimir as marcas da sociedade contemporânea consumidora no corpo. É simplesmente um grito do corpo a tudo o que está PAGO, inclusive ao próprio corpo.
Enganos
Grupo Incógnita
Concepção/intérprete: Urubatan Miranda da Silva
Dramaturgia: Ricardo Barbosa
Agora inundado em toda minha insanidade
vejo o menino Jesus triste num canto escuro
anestesiado com a estupidez da humanidade.
Nesse instante rumino meus próprios pensamentos
misturados com todos os enganos dos meus olhos.
O sexo, a carne, o sangue que mancham meus pés
e me empurram para um abismo escuro e frio
e marcam meu peito...Sufoco!
Sinto a vida partida em minhas veias necrosadas
e entre a turbulência de meus pensamentos
debruço completamente enovelado
com a música triste que sai de meus lábios
entrelaçados com a respiração que finda...sofro!
Estranho, você não é cego
Saudáveis Subversivos / Zecora Ura Theatre
Performer: Flávio Rabelo – o estranho
Participação: Patrik Vezali
"A reflexão é (...) sobreposição de dois olhares e isto porque olhar é antes do mais olhar um olhar. Se não olhasse um olhar, apenas veria. Mas se olha, é porque espera um movimento de retorno." (José Gil)
“Do que é feito o invisível que te atravessa?”
Motivados por esta dúvida, os performers estabelecem um jogo com o espaço e os corpos dos participantes, colhendo os fragmentos das frases jogados ao vento enquanto tecem suas ações.
Esta performance faz parte da série em processo ,Corpoestranho.
m(ar) úmido
Gustavo Torrezan
Dois Atores ou atrizes trajados totalmente de branco ou na cor crú, descalços e com um esborrifador transparente que contém água e sal grosso ocuparão o ambiente esborribando água – irão tambem esborrifar uma na outra e quando se sentirem a vontade ou estimulados(as) farão o mesmo em outras pessoas.
Na Casa da Salamandra
Projeto Salamandra - Adriane Gomes, Cristiano Feitosa, Diego Avila, Guilherme Godoy
A Salamandra abre as portas do seu espaço de criação via webcam.
O Projeto Salamandra realiza um happening dentro de seu espaço de criação. Desenvolvendo ações para o festival, o grupo vai abordar o conceito das videoconferências a partir da luz, da direção de fotografia e da manipulação da realidade. De São Paulo, a apresentação será transmitida para o festival via webcam.
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Entrada livre, mas uma garrafa de vinho é muito bem recebida. Dia 26 de Setembro de 2009, a partir das 20 horas, na Rua Olyntho de Barros, 94(fundos), Residencial Burato, Barão Geraldo, Campinas/SP Pra quem vem de ônibus: ônibus 3.32 (terminal urbano acessível pela própria Rodoviária de Campinas) ou 3.31 (ponto próximo a entrada da rodoviária, na "Governador Pedro de Toledo") até o Terminal Barão Geraldo. No terminal pegar 3.20, 3.24 ou 3.27 e descer no segundo ponto da Rua Gilberto Pattaro. Pra quem vem de carro: a partir da entrada de Barão Geraldo, seguir pela Avenida Santa Isabel até o Posto de Ponta (único posto à direita), virar à esquerda, sentido Real Parque, e seguir pela Rua Gilberto Pattaro até a Rua Olyntho de Barros.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Projeto Salamandra - The Week International!
domingo, 17 de maio de 2009
KLEIN Vídeodança - Projeto Salamandra
Adriane Gomes
Performer
Guilherme Godoy
Edição
Cristiano Feitosa
Câmera
Imagens: Brasil - Holanda
sexta-feira, 15 de maio de 2009
V Festival de Apartamento - Performance - Projeto Salamandra
Adriane Gomes: Performer
Guilherme Godoy: Câmera tempo real e edição
Diego Avila: Live Image
André Nankran: Captação de imagens
Carol Susmeian: Assistente
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Projeto Salamandra no Vermont - Itaim
Fotos:
Mais fotos? www.flickr.com/projetosalamandra
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Um minuto pela PAZ - Ibirapuera
O projeto Salamandra comandou a organização do círculo humano que representou o símbolo universal da paz. Todos devidamente uniformizados com a bela camiseta que foi distribuída gratuitamente. Também contamos com a participação das Icamiabas - um grupo de Maracatu formado somente por mulheres que conquistou os participantes do evento que são amantes da batida eletrônica. Confira as fotos:




O Segundo Ato acontecerá durante a festa de aniversário de 8 anos da Tribe, no dia 20 de dezembro. Pela primeira vez na história da festa o som vai parar e dar lugar a UM MINUTO PELA PAZ. Serão milhares de pessoas juntas canalizando as melhores vibrações, energias, intenções e desejos pela PAZ, com a ajuda de recursos áudio-visuais e a participação de centenas de artistas e de todas as pessoas que estarão trabalhando na festa.PAZ NA TERRA E NO CORAÇÃO DO HOMEM
SHANTI SHANTI SHANTI
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
por detrás
sábado, 18 de outubro de 2008
O BIXO
A maior parte de análise sobre uma possível evolução humana e sua capacidade de codificar as leis da natureza a fim de constituir uma cultura própria se deu através da sofisticação, do desenvolvimento e do avanço das habilidades de suas ferramentas. Ferramentas essas que passou a registrar todo o seu processo histórico e modificando também o espaço e tempo de seu habitar, na qual o homem se via cada vez mais condicionado ao seu uso, não podendo mais assim conceber o mundo sem o uso dessas suas extensões artificiais.
Os cincos sentidos humano de percepção passaram, portanto a interpretar e a imitar através de suas ferramentas as leis da natureza, interagindo cada vez mais no ambiente do planeta à medida que suas extensões ferramentais iam alcançando mais fundo na natureza, ia sendo filtrando assim a sua experiência de vida e o desenvolvimento de seu pensamento em função da razão e da sua lógica artificial do uso dessas ferramentas.
Assim cada época passou a desenvolver uma tecnologia específica, devido ao círculo vicioso de condicionamento que homem enfrentava para manter a sobrevivência de sua cultura e dar continuidade ao processo histórico de sua experiência de vida. Se analisarmos partindo desse ponto de vista, veremos que a tecnologia não sofre uma evolução de projeção linear de desenvolvimento e sim de uma adaptação para codificar os fenonêmo no caso aqui tanto naturais como humanos, criando assim um terreno fértil para dar continuidade ao condicionamento de aperfeiçoamento de sua engrenagem e por tabela manter sua força motora e criadora que nesse caso passa a ser o homem em seu perfeito domínio.
Então cabe aqui falar que quem evolui não é o homem e sim a sua tecnologia, suas extensões artificiais é quem abre campo de pesquisa e sensações do mundo que o cerca dirigindo os seus sentidos a explorar a vida através de artifícios e deduções racionais, é através da experiência tecnológica que o homem pauta a sua vida.
Esta inversão de valores já foi analisada por diversos teóricos no decorrer da história depois da revolução industrial na quais as ferramentas que o homem cercava passaram à cerca o homem e se transformaram em máquinas, constituindo assim um ambiente frio e insólito nas quais as teorias de Karl Max foram se desenvolvendo até sugerir várias reflexões sobre o processo de alienação que enfrentava o homem devido ao direcionamento e uso das ferramentas que depois do processo industrial se transformaria no processo chave da produção em larga escala e acúmulo de capital condenando a maior parte da humanidade a ter uma vida e trabalho subumano a ritmos mecânicos na qual se concentrou toda crítica ideológica do início do século XX.
Como toda experiência da vida humana passa a ser vivida, filtrada e produzida pelas máquinas, passa a ser alterado de vez o sentido da cultura e da comunicação e das ideologias humana, os detectores desde maquinário irão degustar de um poder incomparável a outras épocas, de difícil julgamento, já que eles servem também ao sistema de programação autônomo do desenvolvimento tecnológico que aponta sempre como solução entusiasta a resolver os problemas da humanidade.
Com a invenção da fotografia, cinema, rádio, televisão, vídeo imagens e computadores todo ambiente cultural humano passa a ser programado, calculado e abstraído pela força produtora industrial e econômica, Vilém Flusser e Mc Luhan em suas teorias já alertavam para as mutações sensoriais e a tendência da transfiguração do ambiente industrial pelo ambiente sintético total, a Era Digital.
O Homem aos poucos vai parando de criar através mundo com as matérias primas e secundárias que são transformadas pelas máquinas e passa a criar agora direto da esfera digital ligados a plugs e aparelhos que cada vez mais se aproxima de seu corpo na tendência de conectar de vez seu corpo orgânico a suas extensões sintéticas, todos os seus sentidos, seu mundo e dados culturais passam a ser abstraídos, calculados e recriados pelo computador.
Aparelhos como celulares (minicomputadores), que já na própria antologia do nome já demonstra a pretensão de ser mais um órgão humano, se assemelha muito mais as antigas ferramentas por ser de uso manual e de fácil deslocação, se pressupõe que cada vez mais tanto o habitar como também o corpo humano estará sobreposto junto ao tempo e espaço nulo da esfera digital.
A abstração do mundo concreto a suas simulações imateriais encontrou no computador o seu suporte ideal, todas as manifestações imateriais desenvolvidas pelo pensamento humano se encontra agora presente através da grande rede "a internet", o corpo humano passa a ficar cada vez mais obsoleto se não manter uma performance virtual condizente a nova esfera que se configura, a consciência humana e as dimensões e sensações da percepção de seu corpo e do planeta passa a ser alterada de forma radical neste novo ambiente que se denomina como cultural digital.
A presença e ausência, o corpo e a tecnologia, a crítica à evolução linear e a transfiguração da natureza em ambientes sintéticos computacionais e cidades poluídas, e entendendo o planeta como um grande organismo vivo, a performance "O BIXO" vem através desses meios tecnológicos artificiais voltados neste caso à percepção artística e a presencia corporal, funcionar como um índice dos desafios e sensações que enfrenta o homem contemporâneo, na tentativa de dar continuidade a sua experiência de vida em meia a tantos ambientes e pensamentos sintéticos a respeito de si, levantando assim uma reflexão de forma simbólica espelhada na relação atemporal da pessoa humana e sua tecnologia.
sábado, 20 de setembro de 2008
Reflexo
Decidimos por visitar lugares históricos e falar sobre o esvaziamento de valores e de história desses lugares, ou melhor, lugares marcados por uma data específica e que contivessem uma carga política extremamente forte, pontos na cidade marcados na História do Brasil, e ali, fazer uma espécie de intervenção, de constatação do que restou, o hoje alienado carregando o fardo do passado histórico. Pensamos no DOPS (órgão de repressão durante a ditadura), na Praça da Sé, palco das Diretas Já, o Teatro Ruth Escobar, o teatro onde os atores de Roda Viva, peça de Chico Buarque, foram espancados na ditadura, Rua Maria Antônia, palco da Batalha da Maria Antônia, um enfrentamento entre estudantes em 1968, o Teatro Oficina, útero de peças emblemáticas para a história cultural do Brasil como O rei da Vela, eram tantos lugares, tão distantes uns dos outros, e nós contávamos com cash mínimo, metrô, e vontade, apenas. Logo de cara uma sorte imensa: uma mulher pediu pra sentar conosco na Cinemateca, não queria sentar sozinha, estava sozinha, e começamos conversar, todos, e descobrimos que era performer, atriz também, Adriane Gomes.
É ela, pensamos, e logo aceitou o convite, extremamente atenciosa e disposta a dividir com a gente essa batalha da câmera, do tempo, do tema, da criatividade. Foi-nos referência máxima de sensibilidade e ordenação de nossas idéias, deu-nos suporte artístico e logístico, enfim, uma feliz coincidência.Sob algumas orientações do Professor Alessandro, decidimos por cercar o tema de forma menos abstrata e mais específica, falaríamos de política no dia-a-dia em lugares com peso histórico, ponto. E a Adriane seria a passante, a transeunte, e por fim, a performer. O trabalho não poderia demorar para se iniciar, e o fizemos tão crentes de que seria um longo dia, mas não sequer imaginávamos o que nos aguardava.
Gravamos algumas cenas na Maria Antônia, rua emblemática onde se encontra as universidades Mackenzie e USP, antigamente escola de Filosofia, hoje, centro de recreação, lá, enfrentaram-se os estudantes, integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) versus os estudantes da Universidade de São Paulo, alinhados mais à esquerda. Pancadaria e morte: a vítima, um estudante secundarista de 20 anos, José Carlos Guimarães. Depois, a Sé, dentre pregações, homens bêbados, turistas, Adriane subiria ao marco zero e pregaria política, muda, já que na edição o som era tão somente o ensurdecedor sino da catedral. Essa cena quase nos resultou em prisão: subir no marco zero é proibido! Obviamente não era uma depredação pública, era uma intervenção pública, e só. O policial que quase nos cantou voz de prisão estava estátua atrás da gente, a vigia e a ordem nos perseguia. Em seguida, o DOPS, uma emoção macabra, as celas expostas com fotos de prisioneiros, pareciam celas medievais, portas grossas, ferros pontiagudos; não foi permitido gravar nada, mas sentir tudo aquilo foi-nos cena forte e sangrenta, uma seqüência de horror, que hoje é mascarada com visitas guiadas e iluminação própria, é o show de horror, o entretenimento da dor.
Nessas andanças pelo centro, vimos de tudo de política viva, ou ausência dela: mendigos, crianças abandonadas, todos esses elementos perturbadores, característicos de uma cidade grande, contraditória e suja. Culminamos na Paulista, o centro financeiro de São Paulo, reduto de todo tipo de gente, todo tipo de política. Lá seria o clímax do vídeo com a performance da Adriane portando um vestido espelhado, com luzes refletindo, em meio a carros e pedestres, seria a redenção. Antes disso, deparamo-nos com Verdi, um senhor culto, um mendigo sóbrio, ácido e pessimista. Praguejava coisas como “tem de jogar uma bomba no congresso nacional”, coisas do tipo, mostrou-nos lúcido e inteligente, extremamente crítico, politizado, uma contradição, a personificação da política viva, errante…um são em pele de louco.
Mais que sair para gravar algo, o importante foi sentir o tema antes de qualquer coisa durante esse processo. Poder com sinceridade discursar visualmente sobre o que é, ou pelo menos o que vimos de política viva, dentre um território tão grande, em cima de uma linha tênue, oscilante, que é política. Confrontarmo-nos após tantas revelações nesse dia, dar atenção àqueles que são invisíveis, ouvir os loucos, não tão loucos assim, sentir o peso da vigia, da ordem e segurança pública, tudo isso mexeu com a gente, nos deixou mais preparados, e emocionados também. Na exibição, o que vimos, foram curtas e curtas, uns subjetivos e alienados, outros engajados inconsistentes, outros alegres, pirotécnicos, fracos, mas uns verdadeiros e emocionantes. O bom foi ver a diversidade de olhar, as multifacetadas formas de se produzir com pouco, criativa e intuitivamente, talvez um reflexo da própria universidade, reduto de ensino e de fraquezas, nós, como estudantes audiovisuais temos grande dilema e desafio: produzir com pouco, criativa e diversamente, apontar nossas câmeras para o que vemos, e refletir, o que somos. A Noite de Kino foi isso.
Matheus Chiaratti é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)












